“O Humanismo é uma postura de vida democrática e ética, que afirma que os seres humanos têm o direito e a responsabilidade de dar sentido e forma às suas próprias vidas. Defende a construção de uma sociedade mais humana, através de uma ética baseada em valores humanos e outros valores naturais, dentro do espírito da razão e do livre-pensamento, com base nas capacidades humanas. O Humanismo não é teísta e não aceita visões sobrenaturais da realidade.”
Uma explicação detalhada sobre o humanismo secular, os seus 7 princípios fundamentais e a sua perspetiva sobre religião, naturalismo e ateísmo.
Inclui uma análise sobre como os humanistas seculares veem as alegações religiosas e sobrenaturais, bem como a sua relação com o ateísmo, agnosticismo e deísmo.
Uma lista dos 10 princípios fundamentais do Humanismo, incluindo:
Crença na Razão Humana e no Método Científico (investigação em vez de aceitar o sobrenatural).
O Homem como Produto da Natureza (rejeição da alma eterna ou consciência após a morte).
Cada Ser Humano como uma Criação Única (valorização da diversidade e tolerância).
Fé na Humanidade (capacidade de resolver problemas sem recurso a entes superiores).
Oposição ao Determinismo, Fatalismo e Predestinação (capacidade de decidir o futuro).
Crença numa Ética e Moralidade Humanas (baseada na razão, não em livros sagrados).
Felicidade e Progresso do Homem (para toda a humanidade).
Luta pela Liberdade, Igualdade e Fraternidade (valores universais).
Contributo para a Comunidade (equilíbrio entre satisfação pessoal e bem-estar coletivo).
Separação entre Estado e Igreja (liberdade religiosa sem imposição).
Definições de Humanismo
“O Humanismo é uma postura de vida democrática e ética, que afirma que os seres humanos têm o direito e a responsabilidade de dar sentido e forma às suas próprias vidas. Defende a construção de uma sociedade mais humana, através de uma ética baseada em valores humanos e outros valores naturais, dentro do espírito da razão e do livre-pensamento, com base nas capacidades humanas. O Humanismo não é teísta e não aceita visões sobrenaturais da realidade.”
“A palavra Humanismo deriva do latim humanus, que significa “humano”. Podemos definir brevemente um humanista como alguém cuja visão do mundo confere grande importância aos seres humanos, à vida e ao valor do ser humano. O Humanismo realça a liberdade do indivíduo, a razão, as oportunidades e os direitos.”
Gaarder, Jostein em O Livro das Religiões
“… procura, sem recorrer à religião, o melhor nos seres humanos e para os seres humanos.”
Chambers Pocket Dictionary (Dicionário de Bolso Chambers)
“… uma doutrina, atitude, ou modo de viver centrado nos interesses ou valores humanos; em particular: uma filosofia que normalmente rejeita o sobrenatural e dá enfâse à dignidade do indivíduo e ao seu valor e capacidade para a auto-realização pessoal através do uso da razão.”
“… um apelo ao uso da razão, em vez de revelações ou autoridades religiosas, como uma forma de partir à descoberta do mundo natural e do destino do homem, e, também, para desenvolver uma base para a moralidade… A ética humanista também se distingue por a sua acção moral ter como objectivo alcançar o bem-estar da humanidade, em vez de procurar cumprir a vontade de Deus.”
Oxford Companion to Philosophy (Acompanhante da Filosofia Oxford)
“A rejeição da religião em prol do avanço da humanidade pelo seu próprio esforço.”
“O que é caracteristicamente humano, e não sobrenatural, o que pertence ao homem e não a forças externas, o que eleva o homem à sua maior altura ou lhe dá, enquanto homem, a maior satisfação.”
Encyclopedia of the Social Sciences (Enciclopédia das Ciências Sociais)
O que é o Humanismo Secular?
por Fritz Stevens, Edward Tabash, Tom Hill, Mary Ellen Sikes, Tom Flynn
(tradução: David Noelle / revisão e adaptação: Miguel Duarte)
O Humanismo Secular é um termo que tem sido usado nos últimos trinta anos para descrever uma visão de mundo com os seguintes elementos e princípios:
Uma convicção de que dogmas, ideologias e tradições, religiosas, políticas ou sociais, devem ser avaliados e testados por cada individuo em vez de simplesmente aceites por uma questão de fé.
Compromisso com o uso da razão crítica, evidência factual, e método científico de pesquisa, em lugar da fé e misticismo, na busca de soluções para os problemas humanos e respostas para as questões humanas mais importantes.
Uma preocupação primeira com a satisfação, desenvolvimento e criatividade tanto para o indivíduo quanto para a humanidade em geral.
Uma busca constante pela verdade objectiva, com o entendimento que nossa percepção imperfeita dessa verdade é constantemente alterada por novos conhecimentos e experiências.
Uma preocupação com a vida presente e um compromisso de dotá-la de sentido através de um melhor conhecimento de nós mesmos, nossa história, nossas conquistas intelectuais e artísticas, e as perspectivas daqueles que diferem de nós.
Uma busca por princípios viáveis de conduta ética (tanto individuais quanto sociais e políticos), julgando-os por sua capacidade de melhorar o bem-estar humano e a responsabilidade individual.
Uma convicção de que com a razão, um mercado aberto de ideias, boa vontade, e tolerância, poder-se-á progredir na construção de um mundo melhor para todos nós.
Como os Humanistas Seculares vêem as alegações religiosas e sobrenaturais?
Os Humanistas Seculares seguem uma perspectiva ou filosofia chamada de Naturalismo, na qual as leis físicas do universo não são subordinadas a entidades imateriais ou sobrenaturais como demónios, deuses, ou outros seres “espirituais” fora do domínio do universo natural. Eventos sobrenaturais como milagres (que contradizem as leis físicas) e fenómenos psíquicos, como percepção extra-sensorial, telepatia, etc., não são descartados automaticamente, mas são vistos com um alto grau de cepticismo.
Os Humanistas Seculares são Ateus?
Os Humanistas Seculares tipicamente descrevem-se como ateus (sem crença em um deus e bastante cépticos quanto à possibilidade de haver um) ou agnósticos (sem crença em um deus e em dúvida quanto à possibilidade). Os Humanistas Seculares têm origens filosóficas e religiosas bastante diversas, desde o fundamentalismo cristão até sistemas de crenças liberais e o ateísmo de nascença. Alguns alcançaram conforto em uma posição humanista secular após um período de deísmo. Deístas são aqueles que expressam um sentimento vago ou místico de que uma inteligência criativa pode estar, ou em algum momento esteve, conectada ao universo ou envolvida com a sua criação, mas que é agora não-existente ou não está ocupada com o seu funcionamento.
Os Humanistas Seculares não dependem de deuses ou outras forças sobrenaturais para resolver seus problemas ou oferecer orientação para suas condutas. Em vez disso, dependem da aplicação da razão, das lições da história, e experiência pessoal para formar um fundamento moral e ético e para criar sentido na vida. Humanistas Seculares vêem a metodologia da ciência como a mais confiável fonte de informação sobre o que é factual ou verdadeiro sobre o universo que todos partilhamos, reconhecendo que novas descobertas sempre estarão alterando e expandindo nossa compreensão deste, e possivelmente mudarão também nossa abordagem de assuntos éticos.
Qual é a Origem do Humanismo Secular?
O Humanismo Secular enquanto um sistema filosófico organizado é relativamente novo, mas os seus fundamentos podem ser encontrados nas ideias de filósofos gregos clássicos como os Estóicos e Epicurianos, bem como no Confucionismo Chinês. Estas posições filosóficas buscavam as soluções de problemas humanos em seres humanos em vez de deuses.
Durante a Idade das Trevas da Europa Ocidental, as filosofias humanistas foram suprimidas pelo poder político da igreja. Aqueles que ousavam expressar opiniões em oposição aos dogmas religiosos dominantes eram banidos, torturados ou executados. Foi apenas na Renascença dos séculos XIV a XVII, com o desenvolvimento da Arte, Música, Literatura, Filosofia e as grandes navegações, que a consideração à alternativa humanista a uma existência centrada em Deus passou a ser permitida. Durante o Iluminismo do século XVIII, com o desenvolvimento da ciência, os filósofos finalmente começaram a criticar abertamente a autoridade da igreja e a envolver-se no que se tornou conhecido como “Livre-Pensamento”.
O movimento Livre-Pensador do XIX na América do Norte e Europa Ocidental finalmente tornou possível para o cidadão comum a rejeição da fé cega e superstição sem o risco de perseguição. A influência da ciência e tecnologia, conjuntamente com os desafios à ortodoxia religiosa por célebres livres-pensadores como Mark Twain e Robert G. Ingersoll trouxeram elementos da filosofia humanista até mesmo para igrejas cristãs tradicionais, que se tornaram mais preocupadas com este mundo, e menos com o próximo.
No século XX cientistas, filósofos e teólogos progressistas começaram a organizar-se num esforço para promover a alternativa humanista às tradicionais perspectivas baseadas na fé. Esses primeiros organizadores classificaram o humanismo como uma religião não teísta que preencheria a necessidade humana de um sistema ético e filosófico organizado para orientar as nossas vidas, uma “espiritualidade” sem o sobrenatural. Nos últimos trinta anos, aqueles que rejeitam o sobrenaturalismo enquanto opção filosófica viável adoptaram o termo “Humanismo Secular” para descrever sua postura de vida não religiosa.
Os seus críticos frequentemente tentam classificar o Humanismo Secular como uma religião. No entanto, o Humanismo Secular carece das características essenciais de uma religião, inclusivamente a crença em uma divindade e uma ordem transcendente que a acompanha. Os humanistas seculares mantêm que assuntos referentes a ética, conduta social e legal adequadas, e metodologia da ciência são filosóficos e não pertencem ao domínio da religião, que lida com o sobrenatural, místico e transcendente.
O Humanismo Secular, consequentemente, é uma filosofia e perspectiva que se concentra nos assuntos humanos e emprega métodos racionais e científicos para lidar com a larga variedade de assuntos importantes para todos nós. Ao mesmo tempo que o Humanismo Secular é adverso aos sistemas religiosos baseados em fé em muitos pontos, ele se dedica ao desenvolvimento do indivíduo e da humanidade em geral. Para alcançar esta meta, o Humanismo Secular encoraja a dedicação a um conjunto de princípios que promovem o desenvolvimento da tolerância e compaixão e uma compreensão dos métodos da ciência, análise crítica, e reflexão filosófica.
Aviso a pedido do responsável pelo documento em Inglês: A presente tradução poderá não corresponder em 100% às ideias expressas no documento original.
O que é o Humanismo?
Texto de Fred Edwords
O tipo de resposta que se recebe à questão “O que é o humanismo?” depende do tipo de humanista a que se pergunta!
A palavra “humanismo” tem diferentes significados. Como, com frequência, autores e oradores não clarificam qual o significado a que se referem, quem tenta explicar o que é o humanismo pode facilmente tornar-se numa fonte de confusão. Felizmente, cada significado da palavra constitui um tipo diferente de humanismo e os diferentes tipos são facilmente separados e definidos pelo uso de um adjectivo apropriado. Torna-se, então, relativamente fácil resumir desta forma as variedades de humanismo.
Humanismo Literário
É a devoção às humanidades ou cultura literária.
Humanismo Renascentista
É o espírito de procura de conhecimento que se desenvolveu no final da Idade Média com o renascer dos textos clássicos e uma confiança renovada na capacidade do ser humano em determinar por si próprio a verdade e a falsidade.
Humanismo Cultural Ocidental
É um nome apropriado para a tradição racional e empírica que se originou em grande parte na Grécia e Roma antigas, evoluiu durante a história europeia e constitui, no presente, um pilar básico da postura Ocidental perante a ciência, a teoria política, a ética e a lei.
Humanismo Filosófico
Aplica-se a qualquer perspectiva ou atitude perante a vida centrada nos interesses e necessidades humanas. As subcategorias deste tipo incluem o Humanismo Cristão e o Humanismo Moderno.
Humanismo Cristão
É definido pelo Terceiro Novo Dicionário Internacional Webster como “uma filosofia que defende a auto-realização do homem dentro da estrutura dos princípios cristãos”. Esta fé mais centrada no homem é, em grande parte, um produto da Renascença e constituiu uma parcela do humanismo Renascentista.
Humanismo Moderno
Também chamado Humanismo Naturalista, Humanismo Científico, Humanismo Ético e Humanismo Democrático, é definido por um dos seus principais proponentes, Corliss Lamont, como “uma filosofia naturalista que rejeita todo o sobrenaturalismo e se apoia com primazia na razão e ciência, na democracia e compaixão humana”. O Humanismo Moderno tem uma origem dupla, secular e religiosa, e estas constituem as suas subcategorias.
Humanismo Secular
É um desenvolvimento do iluminismo racionalista do séc. XVIII e do livre-pensamento do séc. XIX. Muitos grupos seculares, como o Council for Secular Humanism (Conselho pelo Humanismo Secular) e a American Rationalist Federation (Federação Racionalista Americana), e muitos filósofos académicos e cientistas não filiados entre si, defendem esta filosofia.
Humanismo Religioso
Originou, em grande parte, da Cultura Ética, Unitarianismo e Universalismo. No presente, muitas congregações Unitárias Universalistas e todas as sociedades de Cultura Ética descrevem-se como humanistas no senso moderno.
A maior ironia em lidar com o Humanismo Moderno é a tendência dos seus defensores em discordarem se esta visão do mundo é ou não religiosa. Os que o vêem como uma filosofia são os Humanistas Seculares enquanto os que o vêem como uma religião são os Humanistas Religiosos. Este diferendo dura desde o início do séc. XX quando as tradições secular e religiosa convergiram e deram origem ao Humanismo Moderno.
Ambos os Humanistas Seculares e Religiosos partilham a mesma visão do mundo e os mesmos princípios básicos. Isto torna-se claro pelo facto de muitos Humanistas Seculares e muitos Humanistas Religiosos terem estado entre os signatários do Manifesto Humanista I em 1933, Manifesto Humanista II em 1973 e Manifesto Humanista III em 2003. Na perspectiva apenas filosófica não existem diferenças entre os dois. É apenas na definição de religião e na prática da filosofia que os Humanistas Seculares e Religiosos de facto discordam.
A definição de religião usada pelos Humanistas Religiosos é, com frequência, funcional. Religião é o que serve as necessidades pessoais e sociais de um grupo de pessoas que partilham a mesma visão filosófica do mundo.
Ao serviço das necessidades pessoais, o Humanismo Religioso oferece uma base para valores morais, um conjunto inspirador de ideais, métodos para lidar com as realidades mais duras da vida, fundamentos para viver a vida de forma jovial, e um sentimento global de propósito e significado.
Para servir as necessidades sociais, as comunidades humanistas religiosas (como as sociedades Cultura Ética e muitas igrejas Universalistas Unitárias) oferecem um sentimento de pertença, uma estrutura institucional para a educação moral das crianças, programas de férias partilhadas com pessoas com as mesmas ideias, o desempenho de ritos de passagem ideologicamente consistentes (casamentos, boas vindas de crianças, celebrações da maioridade, e por diante), uma oportunidade para a afirmação da filosofia de vida de uma pessoa, e um contexto histórico para as suas ideias.
Os Humanistas Religiosos defendem com frequência que a maior parte dos seres humanos têm necessidades pessoais e sociais que apenas podem ser satisfeitas pela religião (definida no sentido funcional já mencionado). Não concordam que uma pessoa deva ter de escolher entre satisfazer estas necessidades num contexto de fé tradicional ou não as satisfazer de todo; indivíduos que não se sentem em casa na religião tradicional devem conseguir encontrar uma casa na religião não tradicional.
Um jornalista perguntou-me uma vez se esta definição funcional de religião não correspondia a retirar o conteúdo e deixar apenas o invólucro superficial. A minha resposta foi que a verdadeira substância da religião é o papel que ela desempenha na vida das pessoas e na vida da comunidade. As Doutrinas podem diferir de denominação para denominação, e novas doutrinas podem substituir outras mais antigas, mas o propósito que a religião tem para as pessoas mantém-se o mesmo. Se definirmos a substância de algo como aquilo que mais perdura e é universal, então é a função da religião que é a sua substância, o seu conteúdo.
Tendo percepção destes factos, os Humanistas Religiosos certificam-se que nunca é permitido que a doutrina subverta o propósito mais elevado de satisfazer as necessidades humanas no aqui e agora. É por isso que as cerimónias humanistas de boas vindas a crianças são preparadas para cada comunidade e os serviços humanistas de casamento são feitos por medida para satisfazer as necessidades especiais do casal e das suas famílias. É por isso que os serviços fúnebres humanistas se concentram não em salvar a alma dos entes queridos que partiram, mas em proporcionar aos que sobrevivem uma experiência pessoal que relembra como eram em vida os que faleceram. É por isso que os humanistas não proselitizam as pessoas no seus leitos de morte. Acham preferível permitir às pessoas falecerem da forma que viveram, sem serem perturbadas pelas agendas de terceiros.
Finalmente, o Humanismo Religioso é “fé em acção”. No seu ensaio “A Fé de um Humanista”, o Ministro Universalista Unitário (UU) Kenneth Phifer declara:
O Humanismo ensina-nos que é imoral esperar que Deus aja por nós. Devemos agir para parar as guerras e os crimes e a brutalidade desta e de épocas futuras. Temos poderes extraordinários. Temos um elevado grau de liberdade em escolher o que iremos fazer. O Humanismo diz-nos que seja qual for a nossa filosofia do universo, em última instância a responsabilidade pelo tipo de mundo em que vivemos reside em nós.
Agora, enquanto os Humanistas Seculares possam concordar com muito do que os Humanistas Religiosos fazem, negam que esta actividade seja chamada “religião”. Não se trata de um mero debate semântico. Os Humanistas Seculares defendem que existem tantas coisas na religião merecedoras de crítica que o bom nome do humanismo não deve ser manchado por associação.
Os Humanistas Seculares referem-se com frequência aos Universalistas Unitários como “humanistas que ainda não abandonaram os hábitos da igreja”. Mas os Universalistas Unitários por vezes contrapõem que um Humanista Secular é simplesmente um “Unitário sem igreja”.
O autor polémico Salman Rushdie foi, nos últimos anos, talvez o exemplar mais conhecido da visão do mundo Humanista Secular. Eis o que disse no programa da ABC Nightline a 13 de Fevereiro de 1989, em relação ao seu livro Os Versículos Satânicos.
(O meu livro diz) que existe um antigo, antigo conflito entre a visão secular do mundo e a visão religiosa do mundo, e, em particular, entre textos que reclamam serem de inspiração divina e textos que são inspirados pela imaginação… Eu não confio em pessoas que anunciam serem portadores da verdade e que procuram orquestrar o mundo de acordo com essa verdade. Penso que essa é uma posição no mundo muito perigosa. Necessita ser desafiada. Necessita ser desafiada constantemente de todo o tipo de maneiras, e foi isso que tentei fazer.
Na edição de 2 de Março de 1989 da New York Review explica que em Os Versículos Satânicos :
tentei dar uma visão secular e humanista do nascimento de uma grande religião mundial. Por isto, aparentemente, devo ser julgado … “Hoje estão a ser desenhadas linhas de batalha,” exclama um dos meus personagens. “O Secular contra o religioso, a luz contra a escuridão. É melhor escolheres de que lado estás”.
A tradição Humanista Secular é em parte uma tradição de desafio, uma tradição que remonta à Grécia antiga. Podem-se ver, mesmo na mitologia grega, temas humanistas que raramente, se alguma vez, se manifestam nas mitologias de outras culturas. E não foram certamente repetidos pelas religiões modernas. O melhor exemplo é a personagem Prometeu.
Prometeu sobressai porque era admirado pelos antigos gregos como aquele que desafiou Zeus. Roubou o fogo dos deuses e trouxe-o de volta à terra. Por isso foi punido. E, no entanto, manteve o seu repto durante as suas torturas. Esta é uma das fontes do desafio humanista à autoridade.
A próxima vez que se vê na mitologia uma personagem Prometeana verdadeiramente heróica é Lúcifer no Paraíso Perdido de John Milton. Só que agora é o Diabo. Ele é o mal. Quem quer que se atreva a desafiar Deus deve ser a maldade personificada. Esta parece ser uma certeza da religião tradicional. Mas os antigos gregos não concordavam. Para eles, Zeus, apesar de todo o seu poder, ainda podia estar errado.
Imaginem o quão chocada ficou uma amiga quando lhe contei a minha visão dos “padrões morais de Deus”. Eu disse, “Se existisse um deus assim, e esses fossem de facto os seus princípios morais ideais, eu seria tolerante. Ao fim e ao cabo, Deus tem direitos às suas opiniões!”
Apenas humanistas se sentirão inclinados em falar desta maneira. Apenas humanistas podem sugerir que, mesmo que haja deus, não há problema em discordar dela ou dele. No Eutífron de Platão, Sócrates mostra que Deus não é necessariamente a fonte do bem, ou o próprio bem. Sócrates pergunta se algo é bom porque Deus o ordena, ou se Deus o ordena porque já é bom. No entanto, desde o tempo dos antigos gregos, nenhuma religião maioritária tem permitido este tipo de interrogação da vontade de Deus ou tornou um personagem desobediente num herói. São os humanistas que reclamam esta tradição.
Afinal, muito do progresso humano tem sido em desafio à religião ou à aparente ordem natural. Quando deflectimos um raio ou evacuamos uma cidade antes de ser atingida por um tornado, diminuímos o impacto dos denominados “actos de Deus”. Quanto aterramos na Lua, desafiamos a força gravitacional da Terra. Quando procuramos uma solução para a crise do SIDA, estamos a contrariar, como argumentou o já falecido Reverendo Jerry Falwell, “a punição de Deus aos homossexuais”.
Politicamente, o desafio às autoridades religiosas e seculares levou à democracia, direitos humanos, e à protecção do ambiente. Os humanistas não pedem desculpa por isto. Os humanistas não manipulam nenhuma doutrina bíblica para justificar estas acções. Reconhecem o desafio Prometeano da sua resposta e orgulham-se nisso. Pois esta resposta é parte da tradição.
Outro aspecto da tradição Humanista Secular é o cepticismo. O modelo histórico do cepticismo é Sócrates. Porquê Sócrates? Porque, depois de todo este tempo, ele ainda se destaca sozinho entre todos os santos e sábios famosos, da antiguidade ao presente. Todas as religiões têm os seus sábios. O Judaísmo tem Moisés, o Zoroastrismo tem Zaratustra, o Budismo tem Buda, o Cristianismo tem Jesus, o Islão tem Maomé, o Mormonismo tem Joseph Smith e Bahai tem Baha-u-lah. Cada um destes indivíduos reclamava saber a verdade absoluta. Apenas Sócrates, sozinho entre sábios famosos, dizia não saber nada. Todos desenharam um conjunto de regras ou leis, excepto Sócrates. Ao invés, Sócrates deu-nos um método – um método para questionar as regras dos outros, de contra-interrogação. E Sócrates não morreu pela verdade, morreu pelos direitos e na defesa do estado de direito. Por estas razões, Sócrates é o modelo de humanista céptico. Ergue-se como um símbolo, tanto do racionalismo Grego como da tradição humanista que nele se originou. E nenhum santo ou sábio igualmente reconhecível se juntou à sua companhia desde a sua morte.
Devido à forte identificação Humanista Secular com as imagens de Prometeu e Sócrates, e uma rejeição igualmente forte da religião tradicional, o Humanista Secular concorda, de facto, com Tertuliano que disse: O que é que Jerusalém tem a ver com Atenas?.
Isto é, os Humanistas Seculares identificam-se mais com a herança racional simbolizada pela antiga Atenas do que com a herança de fé representada pela antiga Jerusalém.
Mas não assumam que o Humanismo Secular é apenas negativo. O lado positivo é a libertação, expressa da melhor forma por estas palavras do agnóstico Americano Robert G. Ingersoll:
Quando me convenci que o universo é natural, que todos os fantasmas e deuses são mitos, entrou no meu cérebro, na minha alma, em todas as gotas do meu sangue a sensação, o sentimento, a alegria da liberdade. As paredes da minha prisão derrocaram e caíram. A masmorra foi inundada por luz e todos os ferrolhos e grades e algemas se tornaram pó. Já não era um servente, um servo ou um escravo. Não tinha nenhum mestre em todo o mundo, nem mesmo no espaço infinito. Eu era livre – livre para pensar, para expressar os meus pensamentos – livre para viver o meu próprio ideal, livre para viver para mim e para aqueles que amava, livre para usar todas as minhas capacidades, todos os meus sentidos, livre para espalhar as asas da imaginação, livre para investigar, para pensar o futuro e sonhar e ter esperança, livre para ajuizar e decidir por mim próprio… Era livre! Ergui-me e sem medo, alegremente enfrentei todos os mundos.
O suficiente para fazer um Humanista Secular gritar “aleluia!”.
O facto de o humanismo poder ser, ao mesmo tempo, tanto religioso como secular corresponde a um paradoxo, claro, mas não é o único paradoxo deste género. Outro paradoxo é que tanto Humanistas Religiosos como Seculares colocam a razão acima da fé, em geral até evitarem a fé por inteiro. O humanismo dá normalmente ênfase à dicotomia entre razão e fé, com os humanistas a marcarem posição do lado da razão. Desta forma, o Humanismo Religioso não deve ser encarado como uma fé alternativa, mas sim com um modo alternativo de se ser religioso.
Estas características paradoxais requerem não só um tratamento único do Humanismo Religioso no estudo das religiões do mundo como ajudam também a explicar o contínuo desacordo, tanto dentro e fora do movimento humanista, sobre se o humanismo é de todo uma religião.
Os paradoxos não terminam aqui. O Humanismo Religioso não tem deus, não tem crença no sobrenatural, não acredita na vida para além da morte, e não tem crença numa fonte “superior” de valores morais. Alguns aderentes iriam até tão longe quanto afirmar que é uma religião sem “crenças” de qualquer género – considerando-se preferível o conhecimento baseado em evidências. Para além disso, a noção comum de “conhecimento religioso” enquanto conhecimento reunido por meios não científicos não é aceite na epistemologia Humanista Religiosa.
Como tanto o Humanismo Religioso como o Humanismo Secular se identificam com o Humanismo Cultural, ambos abraçam prontamente a ciência moderna, os princípios democráticos, os direitos humanos e a liberdade de investigação. A rejeição pelo humanismo dos conceitos de pecado e culpa, especialmente quando relacionados com a ética sexual, coloca-o em harmonia com a sexologia e educação sexual contemporâneas, assim como com aspectos da psicologia humanística. E a história de defesa do estado secular faz do humanismo mais uma voz na defesa da separação entre estado e igreja.
Todas estas características levaram à antiga acusação que se ensina na escola pública a “religião do humanismo secular”.
O ponto mais óbvio a esclarecer neste contexto é que algumas religiões agarram-se a doutrinas que colocam os seus seguidores em conflito com certas propriedades do mundo moderno. Outras religiões não o fazem. Por exemplo, muitos Cristãos Evangélicos, em especial os que preenchem as fileiras da “direita religiosa”, rejeitam a teoria da evolução. Por essa razão, vêem o ensino da evolução nas disciplinas de ciência como uma afronta às suas sensibilidades religiosas. Para defenderem as suas crenças da exposição a ideias inconsistentes com elas, estes crentes classificam a evolução como “Humanismo” e dizem que o seu ensino em exclusividade nas aulas de ciências constitui uma brecha na parede Jefersoniana de separação entre igreja e estado.
É de facto verdade que os Humanistas Religiosos, ao abraçarem a ciência moderna, abraçaram também a evolução. Mas indivíduos que seguem as principais correntes do Protestantismo, Catolicismo e Judaísmo também abraçam a ciência moderna – e, por isso, também a evolução. Acontece que a evolução está hoje no pino do desenvolvimento da ciência e é, desta forma, ensinada nas aulas de ciências. O facto de a evolução ter sido identificada com o Humanismo Religioso e não com a corrente principal do Cristianismo ou Judaísmo é um resultado estranho da política na América do Norte. Mas trata-se de um exemplo típico de toda a controvérsia sobre o humanismo nas escolas.
Outras áreas de estudo têm sido identificadas igualmente com o humanismo, incluindo a educação sexual, a educação de valores (values education), a educação mundial (global education) e, até, a escrita criativa. Existem Cristãos fundamentalistas que nos querem convencer que a “ética de situação (situation ethics)” foi inventada pelo Humanista do Ano de 1974 Joseph Fletcher. Mas as considerações situacionais têm sido um elemento da jurisprudência Ocidental há pelo menos 2000 anos! De novo, os Humanistas Seculares e Religiosos, estando em harmonia com os desenvolvimentos recentes, estão confortáveis com tudo isto, assim como estão os seguidores da maioria das principais religiões. Não há justificação para se verem estas ideias como a herança exclusiva do humanismo. Existem, ainda, razões seculares independentes para a oferta pelas escolas do currículo ensinado. Uma parcialidade a favor da “religião do humanismo secular” nunca foi um factor no seu desenvolvimento e implementação.
A acusação de infiltração humanista nas escolas públicas parece ser o resultado de confusão entre Humanismo Cultural e Humanismo Religioso. Apesar de o Humanismo Religioso abraçar o Humanismo Cultural, isto não justifica separar o Humanismo Cultural, rotulando-o como o legado exclusivo de uma religião não teísta e naturalista chamada Humanismo Religioso, e declará-lo um invasor. Fazê-lo seria virar as costas a uma parte significante da nossa cultura e eleger as normas do fundamentalismo cristão como juízes do que é ou não é religioso. Uma compreensão mais profunda da cultura Ocidental ajudaria a clarificar as questões relacionadas com a controvérsia sobre o humanismo nas escolas públicas.
Ao deixar para trás as áreas de confusão, torna-se possível explicar, de forma simples e directa, o que é exactamente a filosofia do Humanismo Moderno. É fácil resumir as ideias base, comuns tanto aos Humanistas Religiosos como aos Humanistas Seculares. Essas ideias são as seguintes:
O Humanismo é uma daquelas filosofias para as pessoas que pensam por si próprias. Não há uma área de pensamento que um Humanista tenha medo de desafiar e explorar.
O Humanismo é uma filosofia centrada nos meios humanos para compreender a realidade. Os Humanistas não reclamam possuir ou ter acesso a conhecimento supostamente transcendental.
O Humanismo é uma filosofia de razão e ciência na procura do conhecimento. Desta forma, quando se chega à questão dos meios mais válidos para adquirir conhecimento do mundo, os Humanistas rejeitam a fé arbitrária, autoridade, revelação e estados alterados de consciência.
O Humanismo é uma filosofia da imaginação. Os Humanistas reconhecem que os sentimentos intuitivos, palpites, especulação, luzes súbitas de inspiração, emoções, estados alterados de consciência e até experiências religiosas, apesar de não serem métodos válidos para a aquisição de conhecimento, mantêm-se fontes úteis de ideias que podem conduzir a novas formas de olhar o mundo. Estas ideias, após um escrutínio racional sobre a sua utilidade, podem ser aplicadas, frequentemente como formas alternativas de resolução de problemas.
O Humanismo é uma filosofia para o aqui e agora. Os Humanistas encaram os valores humanos como fazendo sentido apenas no contexto da vida humana, em vez de no contexto de uma promessa de uma suposta vida para além da morte.
O Humanismo é uma filosofia de compaixão. A ética Humanista preocupa-se apenas com dar resposta às necessidades e problemas humanos – tanto para o indivíduo como para a sociedade – e não dá qualquer atenção à satisfação dos desejos de supostas entidades teológicas.
O Humanismo é uma filosofia realista. Os Humanistas reconhecem a existência de dilemas morais e a necessidade de se considerarem cuidadosamente as consequências imediatas e futuras das decisões morais.
O Humanismo está em sintonia com a ciência actual. Desta forma, os Humanistas reconhecem que vivemos num universo natural de grade tamanho e idade, que evoluímos neste planeta durante um longo período de tempo, que não existe nenhuma evidência convincente de uma “alma” separável, e que os seres humanos têm certas necessidades intrínsecas que formam, efectivamente, a base de qualquer sistema de valores orientado para o homem.
O Humanismo está em sintonia com o pensamento social instruído do presente. Os Humanistas estão empenhados com as liberdades civis, direitos humanos, separação entre igreja e estado, a extensão da democracia participativa, não apenas no governo mas no local de trabalho e educação, a expansão da consciência global e troca de produtos e ideias internacionalmente, e com uma abordagem à resolução de problemas sociais aberta, uma abordagem que permite o teste de novas alternativas.
O Humanismo está em sintonia com novos desenvolvimentos tecnológicos. Os Humanistas estão disposto a participar em novas descobertas científicas e tecnológicas de forma a exercerem a sua influência nestas revoluções conforme se vão tornando realidade, especialmente com o objectivo de protegerem o ambiente.
O Humanismo é, em síntese, uma filosofia para quem está apaixonado pela vida. Os Humanistas assumem responsabilidade pelas suas próprias vidas e saboreiam a aventura de serem parte de novas descobertas, procurando novos conhecimentos, explorando novas opções. Em vez de encontrarem conforto em respostas pré-fabricadas às grandes questões da vida, os humanistas apreciam a abertura de uma procura sem fim determinado e a liberdade de descoberta que dela advém.
Apesar de haver quem sugira que esta filosofia sempre teve uma adesão fraca e excêntrica, os factos da história mostram o contrário. Entre os aderentes modernos do humanismo contam-se Margaret Sanger, fundadora da Planned Parenthood (Reprodução Planeada) e Humanista do Ano da American Humanist Association (Associação Humanista Americana) em 1957; Os pioneiros da psicologia humanística Carl Rogers e Abraham Maslow, também Humanistas do Ano; Albert Einstein, que se identificou com o humanismo nos anos 30 do séc. XX; Bertrand Russell, que aderiu à Associação Humanista Americana nos anos 60 do séc. XX; o pioneiro dos direitos cívicos A. Philip Randoph, que foi o Humanista do Ano em 1970; e o futurista R. Buckminister Fuller, Humanista do Ano em 1969.
A Organização das Nações Unidas (ONU) é um exemplo específico do humanismo em acção. O primeiro Director Geral da UNESCO, a organização da ONU que promove a educação, ciência e cultura, foi o Humanista do Ano de 1962 Julian Huxley, que praticamente compôs os estatutos da UNESCO sozinho. O primeiro Director Geral da Organização Mundial de Saúde (OMS) foi o Humanista do Ano de 1959 Brock Chisholm. Um dos maiores feitos da OMS foi a erradicação da varíola da face da terra. E o primeiro Director Geral da Organização para a Agricultura e Alimentação (FAO) foi o Humanista Britânico John Boyd Orr.
Entretanto, humanistas como o Humanista do Ano de 1980 Andrei Sakharov ergueram-se em defesa dos direitos humanos onde quer que esses direitos fossem suprimidos. Betty Friedan e Gloria Steinem lutaram pelos direitos das mulheres, Mathilde Krim combateu a epidemia do SIDA, e Margaret Atwood mantém-se como uma das mais vocais defensoras da liberdade literária - todos humanistas.
A lista de cientistas é notável: Stephen Jay Gould, Donald Johanson, Richard Leakey, E.O. Wilson, Francis Crick, Jonas Salk, Steven Weinberg, Carolyn Porco, e muitos outros – todos sócios da Associação Humanista Americana, cujo presidente nos anos 80 do séc. XX foi o já falecido cientista e escritor Isaac Asimov.
A lista de sócios de organizações humanistas, tanto religiosas como seculares, lê-se como um Quem é quem. Através destas pessoas, e muitas outras menos conhecidas, a filosofia humanista teve um impacto no nosso mundo muito desproporcionado em relação ao número de aderentes. Isso diz-nos algo sobre o poder de ideias que funcionam.
Talvez este facto tenha levado o filósofo George Santayana a declarar que o humanismo é “um feito, não uma doutrina”.
Em resumo, com o humanismo moderno encontramos uma postura perante a vida ou uma visão do mundo que está em sintonia com o conhecimento moderno; é inspirador, socialmente consciente e com significado pessoal. Não é apenas a atitude da pessoa que pensa mas também da pessoa que sente, já que inspirou as artes tanto quanto inspirou as ciências; filantropia tanto quanto crítica. E mesmo na crítica é tolerante, defendendo os direitos de todas as pessoas em escolher outros caminhos, em falarem e escreverem livremente, em viverem as suas vidas de acordo com as suas luzes.
A escolha é, por isso, sua. É um humanista?
Não precisa de responder “sim” ou “não”. Pois não se trata de uma proposição “ou isto ou aquilo”. O Humanismo é seu – para adoptar ou simplesmente usar como fonte de inspiração. Pode usar pouco ou muito, bebericar ou sorver até à última gota.
A decisão é sua.
Este é o texto de uma palestra que tem sido apresentada a várias audiências ao longo dos anos.
No breve texto que se segue, faço uma apresentação daqueles que considero serem os princípios fundamentais da Filosofia Humanista.
Os princípios básicos do Humanismo Secular são:
Crença na Razão Humana e no Método Científico:
O nosso conhecimento do Universo é limitado e como tal existem fenómenos para os quais o Homem ainda não encontrou uma explicação. No entanto, o facto de desconhecermos qual a explicação para um fenómeno, não significa que esse seja um fenómeno sobrenatural. Significa simplesmente que estamos perante algo que merece a nossa investigação.
O Homem como um produto da Natureza:
O Homem é um ser constituído por matéria e é produto da Natureza. A consciência do homem está ligada aos mecanismos da sua mente. Como tal, o Humanismo não aceita que o homem tenha uma alma eterna ou consciência após a morte.
Cada ser humano como uma criação única:
Cada ser humano tem algo de único e valioso que o distingue dos demais e que deve ser valorizado. O verdadeiro Humanista é alguém tolerante, que valoriza a diversidade e a diferença existentes em cada indivíduo.
Fé na Humanidade:
O Humanismo acredita nas capacidades da Humanidade para resolver os seus problemas, com base na Razão e na Ciência, sem recurso a qualquer ente superior. Dado que racionalmente não é possível provar a existência ou inexistência de um Deus, os Humanistas são geralmente Agnósticos ou Ateus.
Oposição ao Determinismo, Fatalismo e Predestinação:
Os seres humanos, apesar de condicionados pelo seu passado, possuem capacidade para decidir e alterar o seu futuro.
Crença numa Ética e Moralidade humanas:
A Ética e Moral, enquanto ferramentas essenciais para o funcionamento de uma sociedade harmoniosa, devem ter como base a razão humana. Um Humanista não aceita que lhe imponham valores morais escritos num qualquer livro sagrado ou determinados por suposta inspiração divina. A regra de Ouro de qualquer humanista será “Trata os outros como gostarias que te tratassem a ti próprio”.
Tem como objectivo a Felicidade e o Progresso do Homem:
A todos os níveis e para toda a Humanidade, sem excepções.
Luta pela Liberdade, Igualdade e Fraternidade:
Como membros da espécie humana, é nossa responsabilidade lutar para que estes valores se tornem uma realidade.
Contributo para a Comunidade:
O Humanismo acredita que o indivíduo pode alcançar uma vida feliz, equilibrando a sua satisfação pessoal, com o empenho em contribuir para o bem estar de todos.
Apreciação da beleza das realizações humanas:
A mente humana tem produzido Arte e Conhecimento do qual se deve orgulhar. O contacto com o produto do génio humano é algo que enriquece e aumenta o prazer pela vida. Todos os seres humanos devem ter a oportunidade de se aperceberem do seu potencial e de o utilizarem em actividades onde se sintam realizados.
Separação entre o Estado e a Igreja:
Todos devem ser livres para seguir a sua fé, qualquer que ela seja. Como tal, para que não haja a imposição das crenças de alguns sobre os outros, facto que demasiadas vezes gerou conflitos e mortes desnecessárias, a fé não deve ser autorizada a imiscuir-se nos assuntos do Estado.
Ênfase na Qualidade de Vida:
Apesar de os Humanistas defenderem uma prosperidade material crescente, o bem estar material não é suficiente para garantir a felicidade e realização de ninguém. O Humanismo discorda consequentemente do materialismo e da tecnologia pela tecnologia.
Declarações e Manifestos
Nesta secção, pode encontrar os documentos fundamentais do Humanismo e Humanismo Secular, que definem os seus princípios, valores e visões para a humanidade. Estes textos são referências essenciais para compreender a evolução do pensamento humanista ao longo das décadas.
A Declaração Humanista de 1952 é um dos primeiros documentos formais a definir os princípios do Humanismo Moderno. Redigida por um grupo de pensadores e ativistas, esta declaração estabelece os valores fundamentais do humanismo, como:
A crença na razão e na ciência como bases para a compreensão do mundo.
A valorização da dignidade humana e dos direitos individuais.
A rejeição do sobrenatural como fundamento para a ética ou a moral.
O compromisso com a democracia, a liberdade e a justiça social.
Este documento foi um marco na consolidação do movimento humanista como uma alternativa secular às visões religiosas tradicionais
O Manifesto Humanista III (também conhecido como Humanist Manifesto 2000) é um documento que atualiza e expande os princípios do humanismo para o século XXI. Entre os seus pontos-chave:
A afirmação de que os seres humanos são responsáveis pelo seu próprio destino.
A ênfase na ciência, na tecnologia e na inovação como meios para resolver os desafios globais.
A defesa de uma ética global baseada em valores humanos universais, como a justiça, a liberdade e a solidariedade.
O reconhecimento da diversidade cultural e da necessidade de um diálogo intercultural.
Este manifesto sublinha o humanismo como uma força progressista para a construção de uma sociedade mais justa e sustentável.
Declaração de Amesterdão de 1952
Nota Introdutória: No Congresso Mundial Humanista IHEU (União Internacional Humanista e Ética) em 2002 foi adoptada a versão actualizada “Declaração Humanista de 2002”.
Este congresso é uma resposta à procura generalizada por uma alternativa, por um lado, às religiões que alegam serem baseadas em revelação, e, por outro, aos sistemas totalitários. A alternativa apresentada como uma terceira via para sair da presente crise de civilização é o humanismo, que não é uma nova seita, mas o resultado de uma longa tradição que tem inspirado muitos do pensadores mundiais e artistas criativos e deu origem à própria ciência.
O humanismo ético une todos aqueles que não podem mais acreditar nas várias fés e estão dispostos a assentar as suas convicções no
respeito pelo homem enquanto ser espiritual e moral. Os fundamentos do humanismo ético moderno são os seguintes:
É democrático. Ambiciona ao mais pleno desenvolvimento de cada ser humano. Mantém que se trata de uma questão de direitos. O princípio democrático pode ser aplicado a todas as relações humanas e não se restringe a métodos de governo.
Procura usar a ciência de forma criativa, não destrutiva. Defende uma aplicação global do método científico a problemas relacionados com o bem-estar humano. Os humanistas acreditam que os enormes problemas com que se defronta a humanidade nesta época de transição podem ser resolvidos. A ciência fornece os meios, mas a ciência por si própria não propõe os fins.
O humanismo é ético. Afirma a dignidade do homem e o direito do indivíduo à maior liberdade de desenvolvimento possível compatível com os direitos dos outros. Ao procurar utilizar o conhecimento científico numa sociedade complexa existe o perigo que a liberdade individual possa ser ameaçada pela mesma máquina muito impessoal que foi criada para a salvar. O humanismo ético, desta forma, rejeita tentativas totalitárias para aperfeiçoar a máquina de forma a obter ganhos imediatos à custa dos valores humanos.
Insiste que a liberdade individual é um fim que deve ser combinado com a responsabilidade social por forma a que não seja sacrificada à melhoria das condições materiais. A investigação fundamental, sobre a qual, a longo prazo, assenta o progresso, não seria possível sem liberdade intelectual. O humanismo procura construir um mundo de pessoas livres, responsáveis perante a sociedade. Na defesa da liberdade individual, o humanismo é não dogmático e não impõe nenhum credo aos seus aderentes. Está, por isso, empenhado na educação livre de endoutrinação.
É uma forma de viver, ambicionando à maior satisfação pessoal possível, através do cultivo de uma vivência ética e criativa. Pode ser uma forma de viver para todos em todo o lado se o indivíduo for capaz das respostas exigidas pela ordem social em mudança. A tarefa principal do humanismo hoje é esclarecer as pessoas de forma simples sobre o que pode este pode significar para elas e o que exige delas. Ao utilizar, neste contexto e com o objectivo da paz, o novo poder que a ciência nos deu, os humanistas têm confiança que a presente crise pode ser ultrapassada. Livres do medo, as energias do homem ficarão disponíveis para uma realização pessoal para a qual é impossível prever o limite.
O humanismo ético é, desta forma, uma crença que responde ao desafio dos nossos tempos. Apelamos a todas as pessoas que partilham esta convicção para se associarem a nós nesta causa.
Autor: Congresso da IHEU (União Internacional Humanista e Ética) 1952 (Atual Internacional Humanista)
Tradução: Pedro Lérias
Revisão: Miguel Duarte
Declaração de Amesterdão de 2002
Em 1952, no primeiro Congresso Mundial Humanista, os fundadores da IHEU (União Internacional Humanista e Ética) acordaram uma declaração dos princípios fundamentais do Humanismo moderno. Chamaram-lhe “Declaração Humanista de 1952”. Essa declaração foi filha do seu tempo: construída no mundo de grandes políticas de poder e da Guerra Fria. No seu quinquagésimo aniversário, em 2002, o Congresso Mundial Humanista, de novo reunido nos Países Baixos, aprovou por unanimidade uma resolução a actualizar a declaração anterior: “A Declaração de Amesterdão de 2002”. Após o Congresso, esta declaração actualizada foi adoptada por unanimidade pela Assembleia Geral da IHEU e, desta forma, tornou-se na declaração oficial que define o Humanismo Mundial.
A Declaração de Amesterdão de 2002
O Humanismo é o resultado de uma longa tradição de pensamento livre que inspirou muitos dos grandes pensadores e artista criativos do mundo e deu origem à ciência. Os fundamentos do Humanismo moderno são os seguintes:
O Humanismo é ético. Afirma o valor, dignidade e autonomia do individuo e o direito de todo o ser humano à maior liberdade possível compatível com os direitos dos outros. Os humanistas têm o dever de cuidar de toda a humanidade, incluindo as futuras gerações. Os humanistas acreditam que a moralidade é uma parte intrínseca da natureza humana, baseada numa compreensão e preocupação pelos outros, e não necessita de uma sanção externa.
O Humanismo é racional. Procura usar a ciência de forma criativa, não destrutiva. Os humanistas acreditam que a solução para os problemas do mundo resulta do pensamento e acção do homem e não da intervenção divina. O humanismo defende a aplicação dos métodos da ciência e livre inquérito aos problemas do bem-estar humano. Mas os humanistas também acreditam que a aplicação da ciência e tecnologia deve ser moderada por valores humanos. A ciência fornece-nos os meios mas são os valores humanos que devem propor os fins.
O Humanismo apoia a democracia e os direitos humanos. O humanismo ambiciona ao mais completo desenvolvimento de todo o ser humano. Defende que a democracia e desenvolvimento humano são questões de direito. Os princípios da democracia e dos direitos humanos podem ser aplicados a vários tipos de relações humanas e não se restringem aos métodos de governação.
O Humanismo insiste que a liberdade pessoal tem de ser combinada com responsabilidade social. O humanismo procura construir um mundo com base na ideia da pessoa livre responsável perante a sociedade e reconhece a nossa dependência e responsabilidade pelo mundo natural. O humanismo não é dogmático e não impõe qualquer crença aos seus aderentes. Dedica-se, por isso, à educação livre de endoutrinação.
O Humanismo é uma resposta à procura generalizada por uma alternativa à religião dogmática. As maiores religiões mundiais clamam que são baseadas em revelações, permanentes para todo o sempre, e muitas procuram impor as suas visões do mundo a toda a humanidade. O humanismo defende que o conhecimento fidedigno do mundo e de nós próprios surge de um processo contínuo de observação, avaliação e revisão.
O Humanismo valoriza a criatividade artística e a imaginação e reconhece o poder transformador da arte. O humanismo afirma a importância da literatura, música e das artes visuais e de espectáculo para o desenvolvimento individual e realização pessoal.
O Humanismo é uma postura perante a vida que ambiciona à maior realização pessoal possível através da construção de uma vivência ética e criativa e oferece os meios éticos e racionais para procurar respostas aos desafios dos nossos tempos. O Humanismo pode ser uma forma de viver para todos, em todo o lado.
A nossa principal tarefa é dar a conhecer às pessoas, nos termos mais simples possíveis, o que o Humanismo pode significar para elas, assim como os princípios a que o Humanismo se dedica. Ao utilizar o livre inquérito, o poder da ciência e a imaginação criativa para a prosseguição da paz e ao serviço da compaixão temos confiança que detemos os meios para resolver os problemas com que nos confrontamos. Apelamos a todos os que partilham esta convicção que se associem a nós neste empreendimento.
Autor: Congresso da IHEU (União Internacional Humanista e Ética) 2002 (Atual Internacional Humanista)
Tradução: Pedro Lérias
Revisão: Miguel Duarte
Manifesto Humanista III
O Humanismo e as Suas Aspirações
O Manifesto Humanista III é o sucessor do Manifesto Humanista de 1933
O humanismo é uma filosofia de vida progressiva que, sem supernaturalismos, afirma a nossa capacidade e responsabilidade para ter vidas éticas e de realização pessoal que aspirem a um maior bem-estar da humanidade.
A postura de vida do Humanismo - guiada pela razão, inspirada pela compaixão, e informada pela experiência – encoraja-nos a viver bem e integralmente. Esta evoluiu através das eras e continua a desenvolver-se através de pessoas que refletem e reconhecem que valores e ideais, apesar de cuidadosamente forjados, estão sujeitos a mudanças à medida que os nossos conhecimentos e compreensão avançam.
Este documento é parte de um esforço contínuo de manifestar em termos claros e positivos as fronteiras conceptuais do Humanismo, não aquilo em que temos de acreditar mas um consenso daquilo que acreditamos. É neste sentido que afirmamos o seguinte:
O conhecimento do mundo deriva da observação, experimentação e análise racional. Os humanistas pensam que a ciência é o melhor método para determinar este conhecimento como também para solucionar problemas e desenvolver tecnologias benéficas. Também reconhecemos o valor das novas formas de pensamento, nas artes e experiência interior - cada uma objeto de análise pelo pensamento crítico.
Os humanos são parte integral da Natureza, o resultado de uma mudança evolutiva não guiada. Os humanistas reconhecem que a natureza existe por si mesma. Aceitamos a nossa vida como ela é, distinguindo as coisas como elas são das coisas como gostaríamos ou imaginaríamos que fossem. Damos as boas vindas aos desafios do futuro, os conhecidos e os que ainda virão a ser conhecidos.
Os valores éticos derivam das necessidades e interesse humano como é confirmado pela experiência. Os humanistas fundamentam os valores na necessidade de bem-estar humano constituído pelas circunstâncias, interesses e preocupações humanos e que se estendem ao ecossistema global e além. Estamos comprometidos a tratar cada pessoa como tendo valor e dignidade inerentes, e a fazer escolhas informadas num contexto de liberdade em consonância com um sentido de responsabilidade.
A realização da vida emerge da participação individual no serviço dos ideais humanos. Temos como objetivo para o nosso desenvolvimento mais completo possível e animamos a nossa vidas com um profundo sentido de propósito, encontrando admiração e reverência nas alegrias e beleza da existência humana, nos seus desafios e tragédias e, até mesmo, na inevitabilidade e finalidade da morte. Os humanistas contam com a rica herança da cultura humana, e a postura de vida do Humanismo fornece conforto em tempos de necessidade e encorajamento em tempos de fartura.
Os humanos são sociais por natureza e encontram sentido nos relacionamentos. Os humanistas almejam e esforçam-se por um mundo de cuidado e preocupação mútuos, livre da crueldade e suas consequências, onde as diferenças são resolvidas cooperativamente sem recorrer à violência. A junção entre a individualidade com a interdependência enriquece as nossas vidas, encoraja-nos a enriquecer as vidas dos outros, e inspira em nós a esperança de obter paz, justiça e oportunidades para todos.
O trabalho em benefício da sociedade maximiza a felicidade individual. Progressivamente as culturas têm trabalhado para libertar a humanidade das brutalidades da mera sobrevivência, reduzir o sofrimento, melhorar a sociedade e, desenvolver uma comunidade global. Procuramos diminuir as desigualdades de circunstâncias e competências. E, apoiamos uma justa distribuição dos recursos naturais e dos frutos do esforço humano para que tantos quanto possível possam gozar de uma boa vida.
Os humanistas estão preocupados com o bem-estar de todos, estão comprometidos com a diversidade, e com o respeito pelas diferentes, mas ainda assim humanas, opiniões dos outros. Trabalhamos para apoiar o igual gozo de todos os homens dos direitos humanos e liberdade civis numa sociedade aberta e secular e ainda, afirmamos que é um dever cívico participar no processo democrático e um dever planetário proteger a integridade, diversidade e beleza da Natureza de uma forma segura e sustentável.
Assim, envolvidos no fluxo da vida, aspiramos a esta visão com a convicção informada de que a humanidade tem a capacidade de progredir em direção aos seus mais altos ideais. A responsabilidade pelas nossas vidas e o tipo de mundo no qual vivemos é nossa e apenas nossa.
Nesta página, pode encontrar ligações para organizações, sites, livros e outros recursos relacionados com o Humanismo Secular, ateísmo, laicidade e livre-pensamento em Portugal e na língua portuguesa.
Organizações em Portugal
Associação República e Laicidade: Uma associação que defende a separação entre o Estado e as religiões, promovendo a laicidade e os valores republicanos em Portugal.
AAP - Associação Ateísta Portuguesa: Dedica-se à promoção do ateísmo, do livre-pensamento e da ciência, bem como à defesa dos direitos dos não crentes em Portugal.
Recursos Internacionais em Português
Internacional Humanista: A Internacional Humanista é a principal organização global que representa o Humanismo. O site tem conteúdos em várias línguas, incluindo português.
Free Inquiry: Embora o site seja maioritariamente em inglês, o The Center for Inquiry é uma das organizações mais influentes do movimento humanista secular. Muitos dos seus documentos foram traduzidos para português.
Richard Dawkins Foundation for Reason & Science: O site do biólogo e divulgador científico Richard Dawkins tem recursos sobre ateísmo, ciência e livre-pensamento. Alguns conteúdos estão disponíveis em português.