Breve Introdução à História do Humanismo

O Humanismo tem as suas raízes na Grécia Antiga. Desde então, esteve no centro de períodos de grande avanço no mundo ocidental, como o Renascimento e o Iluminismo. Neste artigo, apresento algumas das figuras e ideias que deram origem ao Humanismo Secular tal como o conhecemos hoje.


O Humanismo na Antiguidade

Sócrates

As primeiras referências a filosofias semelhantes ao Humanismo surgem na Antiguidade, no turbilhão de ideias produzido pelos filósofos da Grécia Antiga. Foi com eles que, pela primeira vez no mundo ocidental, se tentaram encontrar explicações racionais para o mundo que nos rodeia, sem ter por base a religião ou a superstição.

Sócrates, condenado à morte em 399 a.C. por não reconhecer os deuses da cidade e por ser acusado de corromper a juventude, foi talvez o primeiro humanista famoso, embora a palavra “Humanismo” ainda não existisse. Tinha tanta convicção nas suas ideias que se recusou a pedir clemência pelos seus atos, o que o levou a suicidar-se com cicuta.

Sócrates centrava as suas reflexões nos problemas humanos, tentando perceber qual seria o modo de vida ideal para o ser humano. Sobre ele, disse-se que “fazia a filosofia descer do céu à terra, alojava-a nas cidades e trazia-a para dentro dos lares, obrigando as pessoas a pensar sobre a vida e a moral, sobre o bem e o mal”.

Para Sócrates, a virtude identificava-se com o saber, e o ser humano só agia mal por ignorância. Ao contrário de alguns sofistas, que defendiam o relativismo moral, ele considerava que a capacidade de distinguir o certo do errado estava na razão de cada pessoa, e não na sociedade.

Acreditava também que a busca incessante pelo conhecimento era vital. A ele é atribuída a célebre frase: “Só sei que nada sei”. Embora tivesse noção da sua ignorância, foi um dos primeiros a afirmar que era possível ao ser humano alcançar verdades universais sobre o mundo, e que a base para a aquisição de conhecimento era a razão.

Na sua época, as afirmações de Sócrates eram revolucionárias, tal como a sua capacidade de argumentação, que fazia os mais convictos reconhecer que estavam errados e chegar por si próprios a novas conclusões. Embora não nos tenha deixado nenhum registo escrito das suas ideias, só conhecemos o que nos chegou através de outros filósofos, como Platão, a sua influência sente-se até aos dias de hoje.

Os Estóicos

Também o estoicismo, movimento que surgiu por volta de 300 a.C. em Atenas e influenciou a cultura romana até cerca de 200 d.C., deu contribuições importantes para o Humanismo. Destacam-se a sua visão sobre a moral, a importância do raciocínio para o conhecimento da natureza, os princípios de entreajuda entre os indivíduos e o valor de levar uma vida feliz.

Os estóicos afirmavam que a busca por uma moral devia basear-se na observação da natureza. Através dessa observação, seria possível encontrar a justiça universal, presente nas leis naturais e acessível a todos os seres humanos. As leis humanas, por sua vez, seriam uma pálida imitação da lei natural.

O conceito de que o ser humano ocupa um lugar central na reflexão filosófica foi referido por Cícero, um pensador influenciado pelo estoicismo, a quem se atribui a frase: “Para a humanidade, a humanidade é sagrada”.

Os estóicos eram cosmopolitas: integravam-se na sociedade do seu tempo e preocupavam-se com o bem comum. Foram, dos primeiros, no mundo ocidental, a defender a ideia de que todos os seres humanos faziam parte de uma mesma comunidade.

Em resumo, os humanistas da Antiguidade:

  • Concentravam-se nos seres humanos;
  • Aceitavam a razão como a base de toda a perceção;
  • Acreditavam na existência de uma ordem universal;
  • Acreditavam numa lei natural que se aplicava a todos os seres humanos.

O Humanismo no Renascimento

Após a Idade Média, surge, no século XIV, como reação ao obscurantismo introduzido na Europa pelos excessos do Cristianismo e da Igreja Católica, o Renascimento. O Humanismo renascentista representou um ponto de viragem, afastando-se das preocupações com falsas moralidades e passando a valorizar a importância de viver a vida com plenitude. Foi também um período em que as artes e o conhecimento floresceram, e a Europa progrediu em termos civilizacionais, recuperando parte do seu atraso relativamente a outras partes do mundo.

Leonardo da Vinci

Como exemplo de um homem do Renascimento, podemos apresentar Leonardo da Vinci. Com apenas 17 anos, viajou, em 1469, para Florença, núcleo do Renascimento. Nesta cidade, envolveu-se ativamente em todas as áreas da arte, da cultura e da ciência. Interessou-se pelo estudo da natureza e dos processos naturais, dedicando especial atenção a temas tão diversos como o movimento da água, o sistema circulatório humano, o desenvolvimento fetal e a estrutura das plantas. Além disso, tornou-se inventor, descobrindo princípios que ainda hoje são utilizados em muitas das nossas máquinas.

Foi também um estudioso do ser humano. Criou estudos, esboços e pinturas geniais que revelam uma grande sensibilidade pela beleza da forma humana. Com as suas obras, contribuiu para normalizar a representação do nu na arte, recuperando a tradição clássica e afastando-se das conotações exclusivamente religiosas da Idade Média. O seu fascínio pelo ser humano pode ser observado nas suas pinturas, onde as figuras têm um forte carácter e personalidade, como na “Mona Lisa”, na “Dama com Arminho” ou na “Última Ceia”.

As Ideias do Humanismo Renascentista

A Renascença representou a redescoberta do Humanismo da Antiguidade. Em busca de filosofias e moralidades alternativas às cristãs — que tinham sido dominantes durante a Idade Média —, os humanistas da Renascença estudaram as obras produzidas na Grécia e Roma antigas.

Neste período, tornou-se central o regresso ao passado clássico, à sua arte e cultura, o que influenciou profundamente a educação, que passou a incluir o estudo dos textos gregos e latinos. Este foi também o período em que a Europa iniciou a sua longa caminhada para a secularização, que conduziria ao afastamento da Igreja dos caminhos do poder.

O Renascimento testemunhou os primeiros passos no uso sistemático da observação e experimentação, que viriam a abrir portas para o método empírico mais tarde, fundamental para a Ciência moderna.

Podemos afirmar que o Renascimento contribuiu para a filosofia da época com:

  • Uma nova atitude em relação à humanidade;
  • Uma grande vitalidade intelectual;
  • Uma nova visão do mundo natural;
  • Um novo método científico que retirou à religião o controlo do conhecimento;
  • A importância de apreciar a vida ao máximo.

O Iluminismo

O século XVIII trouxe uma nova etapa ao Humanismo, com a chegada do Iluminismo, que teve as suas origens em Inglaterra, mas conheceu o seu auge em França. O Iluminismo foi importante por ter aprofundado muitas das ideias da Renascença, mas também por ter introduzido conceitos originais e fundamentais para o Humanismo.

Voltaire

Este francês foi um dos expoentes do Humanismo Iluminista. Tendo sido preso aos 23 anos devido aos seus versos satíricos sobre as autoridades, foi libertado sob a condição de sair do país. De França, viajou para Inglaterra, onde foi profundamente influenciado pela liberdade de expressão, tolerância religiosa e racionalidade que aí predominavam. Fez da sua vida uma luta constante contra o fanatismo, a intolerância e o abuso de poder, tendo feito ataques particularmente fortes ao poder eclesiástico.

Embora não fosse ateu, lutou contra a opressão religiosa e a crença dogmática. Para ele, nada sabíamos do possível criador do mundo, pois este nunca se poderia ter revelado de forma sobrenatural, como acreditavam judeus, cristãos e muçulmanos. Deus, se existisse, apenas se manifestaria através da natureza e das leis naturais.

Voltaire afirmava ainda que a ignorância e o fanatismo faziam com que os seres humanos se perseguissem e matassem uns aos outros em nome da religião. Considerava absurda a ideia de que se pudessem mudar os acontecimentos do mundo ou influenciar Deus através da oração, pois o mundo era governado por leis imutáveis. Para ele, o esclarecimento e a razão acabariam por vencer, desde que se conseguisse explicar os novos conceitos e ideias do Iluminismo de forma simples e acessível a todos.

As Ideias do Humanismo Iluminista

Tal como os humanistas da Antiguidade, os filósofos do Iluminismo acreditavam no poder da razão humana. O Iluminismo é, aliás, também conhecido como a Idade da Razão. O seu objetivo era estabelecer uma base moral, religiosa e política que acompanhasse a razão intemporal do ser humano.

A ênfase passou a ser colocada na educação, com o objetivo de criar uma sociedade mais esclarecida. Os iluministas acreditavam que tinha chegado o momento de educar as massas, criando assim uma sociedade melhor. Com uma maior educação, seria o fim da miséria e da opressão, pois estas eram causadas apenas pela ignorância e pela superstição. A humanidade daria, assim, grandes passos em frente, e a irracionalidade e a ignorância seriam varridas.

Os iluministas lutavam pelos direitos do indivíduo e do cidadão, o que significava, acima de tudo, a defesa da liberdade de imprensa e da liberdade de expressão. Os direitos de cada pessoa para expressar as suas opiniões tinham de ser assegurados, quer se tratasse de assuntos religiosos, morais ou políticos.

Como produtos que ainda hoje influenciam as nossas vidas, destacam-se a criação da Enciclopédia — que inspirou muitas das constituições atuais em todo o mundo — e os alicerces que lançaram para a Declaração Universal dos Direitos Humanos das Nações Unidas.

Os humanistas do Iluminismo:

  • Revoltaram-se contra as velhas autoridades, como a da Igreja e a da aristocracia;
  • Defendiam o primado da razão;
  • Trabalhavam pela educação das massas;
  • Acreditavam no progresso cultural e tecnológico;
  • Desejavam banir da religião o fanatismo e o dogma;
  • Lutavam pela inviolabilidade dos indivíduos, pela liberdade de expressão, pela justiça, pela filantropia e pela tolerância.

Copyright (c) 2002 por Miguel Duarte.

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