Glossário dos Não-Religiosos

Agnóstico: A palavra “agnóstico” é por vezes utilizada para descrever alguém que não consegue decidir se acredita ou não num deus. Estará, talvez, “em cima do muro”. No entanto, o uso original da palavra servia para descrever alguém que acredita que não podemos saber com certeza se um deus existe ou não, e é nesse sentido que muitas pessoas não-religiosas a utilizam hoje em dia.

Algumas pessoas descrevem-se como sendo tanto agnósticas quanto ateias (ou ateus agnósticos). Aceitam que não podemos saber com certeza se um deus existe ou não (é impossível provar que algo não existe), mas não acreditam em nenhum e vivem as suas vidas em conformidade.

Apateísta: É um termo mais recente mas muito relevante para a sociedade atual. O apateísmo (uma amálgama de apatia e teísmo) descreve a atitude de alguém que é completamente indiferente à existência ou não-existência de Deus ou de deuses. Para um apateísta, a questão religiosa não tem qualquer interesse, impacto ou relevância na sua vida quotidiana, nas suas decisões morais ou na forma como vê o mundo. Ao contrário de um ateu ou agnóstico militante, que pode debater ativamente o tema, o apateísta simplesmente não quer saber.

Ateu: A palavra “ateu” é utilizada para descrever alguém que não acredita num deus. Esta ausência de crença não é uma posição de fé, mas baseia-se tipicamente no facto de a pessoa não ver evidências ou razões válidas ou convincentes para acreditar num deus ou em deuses. No entanto, saber que alguém é ateu não nos diz mais nada sobre as suas crenças mais amplas, valores ou visão do mundo. Muitos ateus terão uma abordagem humanista da vida, mas alguns não. Algumas pessoas que consideram ter uma identidade religiosa (por exemplo, judaica ou anglicana), talvez por razões familiares ou culturais, também são ateias porque não acreditam num deus.

Cético: Hoje em dia, significa habitualmente alguém que duvida da verdade das crenças religiosas e de outras crenças sobrenaturais ou “paranormais”. (“Cético” também tem um significado filosófico especial: alguém que rejeita ou é cético em relação a todas as alegações de conhecimento).

Espiritualmente não-religioso (ou “Sem religião, mas espiritual”): Descreve um grupo de pessoas que rejeitam as religiões organizadas, os seus dogmas e as suas instituições (igrejas), mas que ainda sentem necessidade de cultivar uma vida interior, um sentido de transcendência, conexão com o universo ou com a natureza. Não se identificam como ateias materialistas, preferem procurar o bem-estar e o significado da vida através de práticas individuais (como a meditação ou o ioga) ou de filosofias orientais secularizadas, sem se vincularem a nenhuma estrutura eclesiástica.

Humanista: Um humanista é uma pessoa não-religiosa que acredita que esta é a única vida que temos, que podemos viver vidas significativas e plenas no aqui e agora, e que devemos apoiar os outros a fazer o mesmo. Acreditam que a ciência fornece a melhor forma de compreender o mundo à nossa volta e não veem evidências convincentes para acreditar num deus, numa força superior ou em quaisquer aspetos sobrenaturais da realidade. Tomam as suas decisões éticas com base na empatia e na preocupação com o bem-estar dos seres humanos e de outros animais sencientes, e tentam dar uma contribuição positiva para a construção de uma sociedade melhor.

Humanista Secular: Embora o termo “humanista” já implique a não-religião em muitos contextos internacionais, em Portugal e noutros países de matriz católica, o termo “humanismo” é por vezes reivindicado por correntes religiosas (como o humanismo cristão). Por isso, muitos não-religiosos preferem autodenominar-se especificamente “humanistas seculares”. Esta designação deixa claro que a sua postura ética, moral e filosófica se baseia estritamente na razão, na ciência e na experiência humana, sem qualquer recurso a dogmas religiosos, revelações divinas ou textos sagrados.

Naturalista: Um naturalista (no contexto da visão do mundo e da filosofia) é alguém que defende o naturalismo filosófico. Trata-se da convicção de que o mundo natural, o universo físico regido pelas leis da natureza que a ciência estuda, é tudo o que existe. Os naturalistas rejeitam a existência de entidades sobrenaturais, tais como deuses, espíritos, feitiçaria, milagres ou uma “vida além-túmulo”, por considerarem que não há provas científicas da sua existência. Para um naturalista, a mente humana e a consciência são fenómenos inteiramente naturais, resultantes da evolução biológica e da atividade cerebral, e não de uma alma imaterial.

Este termo não deve ser confundido com o sentido histórico de “naturalista” enquanto biólogo de campo ou cientista da natureza, como Charles Darwin, embora partilhem a mesma raiz de respeito e estudo pelo mundo natural.

Laico / Laicista: Nas línguas latinas (com forte raiz na “laïcité” francesa), o termo está diretamente ligado ao princípio político e constitucional da laicidade do Estado (consagrado na Constituição da República Portuguesa). Define a separação total e institucional entre o Estado e as confissões religiosas. Alguém que defende ativamente este princípio é um laicista ou defensor da laicidade. O Estado laico é estritamente neutro: não apoia, não financia e não privilegia nenhuma religião, garantindo que o espaço público pertence a todos, crentes e não-crentes. Muitos humanistas são defensores da laicidade, mas também muitas pessoas religiosas a apoiam para garantir a sua própria liberdade de culto.

Os defensores da laicidade acreditam que:

  • Deve existir uma separação absoluta e jurídica entre as instituições religiosas e as instituições do Estado;
  • O Estado deve ser inteiramente neutro em matéria religiosa, não adotando nenhuma crença como oficial;
  • Os indivíduos devem ter total liberdade de religião ou de crença, incluindo a liberdade de não ter religião, de rejeitar ou de mudar de convicções;
  • Deve existir igualdade de tratamento cidadão, sem qualquer privilégio (como regimes fiscais de exceção) ou discriminação com base na religião ou crença.

Livre-pensador: Foi um termo popular no século XIX, utilizado por aqueles que rejeitavam a autoridade em matérias de crença, especialmente crenças políticas e religiosas. Ainda é utilizado em diferentes línguas em alguns países europeus por organizações não-religiosas para se descreverem a si próprias.

Não-crente: Estes termo é frequentemente utilizado para descrever alguém que não acredita num deus. Muitos ateus preferem não utilizar estas palavra porque as pessoas que não acreditam num deus possuem, naturalmente, muitas outras crenças (sobre a natureza da realidade, sobre como devemos viver e sobre como devemos tratar os outros).

Racionalista: Pode significar alguém que prioriza o uso da razão e considera a razão crucial para investigar e compreender o mundo. Os racionalistas rejeitam frequentemente a religião com o argumento de que acreditam que esta não pode ser fundamentada na razão. (O racionalismo é por vezes contrastado com o fideísmo — posições que dependem de ou defendem a ‘fé’ até certo ponto).

Secular / Secularista: Embora na tradição anglo-saxónica (secularism) se confunda frequentemente com a laicidade, em Portugal o termo “secular” refere-se historicamente ao que pertence ao mundo temporal, civil ou profano (por oposição ao estritamente religioso ou clerical). O termo “secularização” descreve o fenómeno sociológico em que a cultura, a moral pública, a ciência e os comportamentos sociais se emancipam da tutela e dos dogmas da Igreja. Um secularista, neste contexto, foca-se na promoção de uma sociedade civil orientada por valores terrenos, racionais e humanos, onde as decisões do quotidiano e a ética social se desenvolvem de forma independente das doutrinas religiosas.


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