# Uma Declaração Humanista Secular

Criada em 1980 pelo *The Council for Democratic and Secular Humanism* (atualmente o *Council for Secular Humanism*)

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## Nota do Tradutor: A Atualidade do Manifesto em 2026

Quase meio século após a publicação original da Declaração Humanista Secular em 1980, trazer este texto para a língua portuguesa é não só um exercício de resgate histórico, mas também um ato de inegável urgência contemporânea. Ao debruçar-me sobre as palavras redigidas por Paul Kurtz e subscritas por algumas das mentes mais brilhantes do século XX, revi-me profundamente nos princípios fundamentais aqui delineados. A defesa acérrima da livre investigação, a separação inequívoca entre Igreja e Estado, e a crença na capacidade humana de construir uma ética baseada na inteligência crítica continuam a ser pilares insubstituíveis para qualquer sociedade livre.

Lido à luz do ano de 2026, é surpreendente, e até perturbador, constatar o quão profético este manifesto permanece. As ameaças à razão e à ciência, que os autores identificavam nos anos 80, não desapareceram. Se na altura o obscurantismo se manifestava sobretudo através do fervor de novos cultos religiosos e do fundamentalismo tradicional, hoje enfrentamos epidemias de desinformação digital, a rejeição do método científico, e novas vagas de intolerância que ameaçam os direitos e as liberdades individuais.

O leitor contemporâneo notará que o texto reflete as trincheiras ideológicas da Guerra Fria. As repetidas menções ao comunismo como uma força totalitária e um “movimento quase-religioso” espelham as ansiedades geopolíticas da época relativamente ao Bloco Soviético, uma realidade que, no nosso panorama político atual, já não detém a mesma relevância. De igual modo, algumas das batalhas culturais específicas mencionadas, como o foco quase exclusivo nos meios de comunicação tradicionais (televisão e rádio) em detrimento do ciberespaço, ou como certas crenças “paranormais” são categorizadas, são inegavelmente produtos do seu tempo.

No entanto, estas marcas do tempo não beliscam a espinha dorsal da Declaração. Onde o documento fala da ameaça do comunismo estatal, podemos hoje ler o perigo dos novos autoritarismos (sejam eles seculares ou teocráticos, de esquerda ou direita) que continuam a procurar esmagar a dissidência. Onde alerta para a televisão banalizada, vemos o eco nas câmaras de eco dos algoritmos contemporâneos que promovem o mínimo denominador comum.

Traduzir este manifesto foi um reencontro com a crença de que não precisamos de dogmas ou de supervisão sobrenatural para levarmos vidas éticas, compassivas e significativas. A esperança no potencial humano, ancorada na razão e na tolerância, continua a ser a bússola mais segura para navegarmos as complexidades do nosso tempo. Que esta versão em português sirva para reavivar o debate e inspirar todos os que, como eu, continuam a acreditar que o futuro da humanidade está nas nossas próprias mãos.

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## Introdução

O humanismo secular é uma força vital no mundo contemporâneo. Encontra-se atualmente sob um ataque injustificado e intempestivo vindo de vários quadrantes. Esta declaração defende apenas a forma de humanismo secular explicitamente comprometida com a democracia. Opõe-se a todas as variedades de crença que procuram uma sanção sobrenatural para os seus valores ou que apoiam o governo ditatorial. O humanismo secular democrático tem sido uma força poderosa na cultura mundial. Os seus ideais podem ser traçados desde os filósofos, cientistas e poetas da Grécia e Roma clássicas, até à antiga sociedade confucionista chinesa, ao movimento Charvaca da Índia e a outras distintas tradições intelectuais e morais. O secularismo e o humanismo foram eclipsados na Europa durante a Idade das Trevas, quando a piedade religiosa erodiu a confiança da humanidade nos seus próprios poderes para resolver os problemas humanos. Reapareceram em força durante o Renascimento, com a reafirmação dos valores seculares e humanistas na literatura e nas artes; novamente nos séculos dezasseis e dezassete, com o desenvolvimento da ciência moderna e de uma visão naturalista do universo; e a sua influência pode ser encontrada no século dezoito, na Idade da Razão e no Iluminismo.

O humanismo secular democrático floresceu criativamente nos tempos modernos com o crescimento da liberdade e da democracia. Incontáveis milhões de pessoas ponderadas abraçaram os ideais humanistas seculares, viveram vidas com propósito e contribuíram para a construção de um mundo mais humano e democrático. A perspetiva humanista secular moderna levou à aplicação da ciência e da tecnologia na melhoria da condição humana. Isto teve um efeito positivo na redução da pobreza, do sofrimento e da doença em várias partes do mundo, no prolongamento da longevidade, na melhoria dos transportes e da comunicação, e possibilitaram uma qualidade de vida elevada para cada vez mais pessoas. Conduziu à emancipação de centenas de milhões de pessoas do exercício da fé cega e dos medos da superstição, e contribuiu para a sua educação e para o enriquecimento das suas vidas.

O humanismo secular forneceu o ímpeto para os seres humanos resolverem os seus problemas com inteligência e perseverança, para conquistarem fronteiras geográficas e sociais, e para alargarem o alcance da exploração humana e da aventura. Lamentavelmente, enfrentamos hoje uma variedade de tendências antissecularistas: o reaparecimento de religiões dogmáticas autoritárias; o cristianismo fundamentalista, literalista e doutrinário; um crescimento rápido e intransigente do clericalismo muçulmano no Médio Oriente e na Ásia; a reafirmação da autoridade ortodoxa pela hierarquia papal católica romana; o judaísmo religioso nacionalista; e a regressão a religiões obscurantistas na Ásia.

Novos cultos da irracionalidade, bem como crenças bizarras no paranormal e no oculto, tais como a crença na astrologia, na reencarnação e no poder misterioso de supostos psíquicos, florescem em muitas sociedades ocidentais. Estes desenvolvimentos preocupantes surgem na sequência da emergência, na primeira parte do século vinte, de movimentos quase-religiosos totalitários e messiânicos intolerantes, tais como o fascismo e o comunismo. Estes ativistas religiosos não só são responsáveis por muito do terror e da violência no mundo de hoje, como também se posicionam como um obstáculo às soluções para os problemas mais sérios do mundo.

Paradoxalmente, alguns dos críticos do humanismo secular sustentam que este é uma filosofia perigosa. Alguns afirmam-no como “moralmente corruptor” por estar comprometido com a liberdade individual; outros que tolera a “injustiça” por defender o processo democrático. Nós, que apoiamos o humanismo secular democrático, negamos tais acusações, as quais se baseiam em mal-entendidos e más interpretações, e procuramos delinear um conjunto de princípios que a maioria de nós partilha.

O humanismo secular não é um dogma ou um credo. Existem grandes diferenças de opinião entre os humanistas seculares em muitos assuntos. No entanto, existe um consenso no que diz respeito a várias proposições. Sentimo-nos apreensivos pelo facto de a civilização moderna estar ameaçada por forças antitéticas à razão, à democracia e à liberdade. Muitos crentes religiosos partilharão, sem dúvida, connosco a crença em muitos valores humanistas seculares e democráticos, e congratulamo-nos com a sua união connosco na defesa destes ideais.

## A Livre Investigação

O primeiro princípio do humanismo secular democrático é o seu compromisso com a livre investigação. Opomo-nos a qualquer tirania sobre a mente do homem, a quaisquer esforços por parte de instituições eclesiásticas, políticas, ideológicas ou sociais para acorrentar o pensamento livre. No passado, tais tiranias foram dirigidas por igrejas e Estados na tentativa de impor os éditos de fanáticos religiosos. Na longa luta da história das ideias, as instituições estabelecidas, tanto públicas como privadas, tentaram censurar a investigação, impor a ortodoxia nas crenças e nos valores, excomungar heréticos e extirpar infiéis.

Hoje, a luta pela livre investigação assumiu novas formas. As ideologias sectárias tornaram-se as novas teologias que utilizam partidos políticos e governos na sua missão de esmagar a opinião dissidente. A livre investigação pressupõe o reconhecimento das liberdades civis como parte integrante da sua procura. Imprensa livre, liberdade de comunicação, direito de organizar partidos de oposição, de aderir a associações voluntárias e a liberdade de cultivar e publicar os frutos da liberdade científica, filosófica, artística, literária, moral e religiosa.

A livre investigação exige que toleremos a diversidade de opinião e que respeitemos o direito dos indivíduos de expressar as suas crenças, por mais impopulares que sejam, sem proibição social ou legal e sem medo de sanções. Embora possamos tolerar pontos de vista contrastantes, isto não significa que estes estejam imunes ao escrutínio crítico. A premissa orientadora daqueles que acreditam na livre investigação é que a verdade tem maior probabilidade de ser descoberta se existir a oportunidade para o livre intercâmbio de opiniões opostas; o processo de partilha é, frequentemente, tão importante quanto o resultado. Isto aplica-se não só à ciência e à vida quotidiana, mas também à política, à economia, à moralidade e à religião.

## A Separação da Igreja e do Estado

Devido ao seu compromisso com a liberdade, os humanistas seculares acreditam no princípio da separação da Igreja e do Estado. As lições da história são claras: onde quer que uma religião ou ideologia seja estabelecida e receba uma posição dominante no Estado, as opiniões minoritárias correm perigo. Uma sociedade pluralista, aberta e democrática permite que todos os pontos de vista sejam ouvidos. Qualquer esforço para impor uma conceção exclusiva de Verdade, Piedade, Virtude ou Justiça a toda a sociedade é uma violação da livre investigação.

As autoridades clericais não devem ter permissão para legislar as suas próprias visões paroquiais, sejam elas morais, filosóficas, políticas, educativas ou sociais, para o resto da sociedade. Da mesma forma, as receitas fiscais não devem ser exigidas para o benefício ou sustento de instituições religiosas sectárias. Os indivíduos e as associações voluntárias devem ser livres de aceitar ou não qualquer crença e de apoiar estas convicções com os recursos que possuam, sem serem compelidos por via fiscal a contribuir para credos religiosos com os quais não concordam.

Do mesmo modo, a propriedade das igrejas deve partilhar o encargo das receitas públicas e não deve estar isento de impostos. Os juramentos religiosos obrigatórios e as orações em instituições públicas (políticas ou educativas) são também uma violação deste princípio da separação. Hoje em dia, tanto as religiões não teístas como as teístas competem pela atenção do público. Lamentavelmente, nos países comunistas, o poder do Estado é utilizado para impor uma doutrina ideológica à sociedade, sem tolerar a expressão de visões dissidentes ou heréticas. Vemos aqui uma versão secular moderna da violação do princípio da separação.

## O Ideal de Liberdade

Há muitas formas de totalitarismo no mundo moderno, secular e não secular, a todas as quais nos opomos vigorosamente. Como secularistas democráticos, defendemos consistentemente o ideal de liberdade. Não apenas a liberdade de consciência e de crença face àqueles interesses eclesiásticos, políticos e económicos que procuram reprimi-las, mas a genuína liberdade política, a tomada de decisões democráticas baseada na regra da maioria, e o respeito pelos direitos das minorias e pelo Estado de direito.

Defendemos não só a independência do controlo religioso, mas também a liberdade do controlo governamental nacionalista exacerbado (jingoísta). Defendemos os direitos humanos fundamentais, incluindo a integridade da vida, a liberdade individual e a livre busca da felicidade. Na nossa opinião, uma sociedade livre deveria também incentivar alguma medida de liberdade económica, sujeita apenas às restrições necessárias ao interesse público. Isto significa que os indivíduos e os grupos devem poder competir no mercado, organizar sindicatos livres e exercer as suas profissões e carreiras sem a interferência indevida de um controlo político centralizado.

O direito à propriedade privada é um direito humano sem o qual os outros direitos se tornam nulos. Nos casos em que seja necessário limitar qualquer um destes direitos numa democracia, a limitação deve ser justificada em função das suas consequências para o reforço de toda a estrutura dos direitos humanos.

## A Ética Baseada na Inteligência Crítica

As visões morais do humanismo secular têm sido alvo de críticas por parte de teístas fundamentalistas religiosos. O humanista secular reconhece o papel central da moralidade na vida humana; na verdade, a ética desenvolveu-se como um ramo do conhecimento humano muito antes de os religiosos proclamarem os seus sistemas morais baseados na autoridade divina. O campo da ética conta com uma lista distinta de pensadores que contribuíram para o seu desenvolvimento: de Sócrates, Demócrito, Aristóteles, Epicuro e Epicteto, a Espinosa, Erasmo, Hume, Voltaire, Kant, Bentham, Mill, G. E. Moore, Bertrand Russell, John Dewey, entre outros.

Existe uma tradição filosófica influente que defende que a ética é um campo autónomo de investigação, que os juízos éticos podem ser formulados independentemente da religião revelada e que os seres humanos podem cultivar a razão prática e a sabedoria e, pela sua aplicação, alcançar vidas de virtude e excelência. Além disso, os filósofos enfatizam a necessidade de cultivar o apreço pelas exigências da justiça social e pelas obrigações e responsabilidades de um indivíduo em relação aos outros. Deste modo, os secularistas rejeitam que a moralidade precise de ser deduzida da crença religiosa ou que aqueles que não aderem a uma doutrina religiosa sejam imorais. Para os humanistas seculares, a conduta ética é, ou deveria ser, julgada pela razão crítica, e a sua meta é desenvolver indivíduos autónomos e responsáveis, capazes de fazer as suas próprias escolhas na vida com base na compreensão do comportamento humano.

Uma moralidade que não se baseie em Deus não tem de ser antissocial, subjetiva ou promíscua, nem tem de levar à rutura dos padrões morais. Embora acreditemos na tolerância face a diversos estilos de vida e costumes sociais, não consideramos que estes estejam imunes à crítica. Também não acreditamos que nenhuma igreja deva impor as suas visões de virtude moral e pecado, conduta sexual, casamento, divórcio, controlo de natalidade ou aborto, nem legislar para o resto da sociedade.

Como humanistas seculares, acreditamos na importância central do valor da felicidade humana aqui e agora. Opomo-nos à moralidade absolutista, embora defendamos que existem padrões objetivos e que os valores e princípios éticos podem ser descobertos no curso da deliberação ética. A ética humanista secular sustenta que é possível aos seres humanos viver vidas significativas e saudáveis, tanto para si próprios como ao serviço dos seus semelhantes, sem a necessidade de mandamentos religiosos ou do benefício do clero. Existiram inúmeros secularistas e humanistas ilustres que demonstraram princípios morais nas suas vidas pessoais e obras: Protágoras, Lucrécio, Epicuro, Espinosa, Hume, Thomas Paine, Diderot, Mark Twain, George Eliot, John Stuart Mill, Ernest Renan, Charles Darwin, Thomas Edison, Clarence Darrow, Robert Ingersoll, Gilbert Murray, Albert Schweitzer, Albert Einstein, Max Born, Margaret Sanger e Bertrand Russell, entre outros.

## A Educação Moral

Acreditamos que o desenvolvimento moral deve ser cultivado nas crianças e nos jovens adultos. Não acreditamos que nenhuma seita possa reivindicar valores importantes como sua propriedade exclusiva; por conseguinte, é dever da educação pública lidar com estes valores. Nesse sentido, apoiamos uma educação moral nas escolas que seja concebida para desenvolver o apreço pelas virtudes morais, pela inteligência e pela construção do caráter. Desejamos incentivar, sempre que possível, o crescimento da consciência moral, a capacidade de livre escolha e a compreensão das suas consequências.

Não consideramos moral batizar bebés, crismar adolescentes ou impor um credo religioso a jovens antes que estes tenham capacidade de dar o seu consentimento. Embora as crianças devam aprender sobre a história das práticas morais religiosas, estas mentes jovens não devem ser doutrinadas numa fé antes de terem maturidade suficiente para avaliar os seus méritos por si mesmas. Deve notar-se que o humanismo secular não é tanto uma moralidade específica, mas sim um método para a explicação e descoberta de princípios morais racionais.

## O Ceticismo Religioso

Como humanistas seculares, somos geralmente céticos relativamente às alegações sobrenaturais. Reconhecemos a importância da experiência religiosa: essa experiência que redireciona e dá significado às vidas dos seres humanos. Negamos, no entanto, que tais experiências tenham algo a ver com o sobrenatural. Duvidamos das visões tradicionais de Deus e da divindade. As interpretações simbólicas e mitológicas da religião servem frequentemente como racionalizações para uma minoria sofisticada, deixando a maioria da humanidade a debater-se em confusão teológica. Consideramos o universo como um cenário dinâmico de forças naturais, compreendidas de forma mais eficaz através da investigação científica. Estamos sempre abertos à descoberta de novas possibilidades e fenómenos na natureza. No entanto, descobrimos que as visões tradicionais sobre a existência de Deus são desprovidas de sentido, ainda não demonstraram ser verdadeiras, ou são tiranicamente exploratórias.

Os humanistas seculares podem ser agnósticos, ateus, racionalistas ou céticos, mas encontram evidências insuficientes para a alegação de que existe algum propósito divino para o universo. Rejeitam a ideia de que Deus tenha intervindo milagrosamente na história, ou que se tenha revelado a alguns poucos escolhidos, ou que possa salvar ou redimir pecadores. Acreditam que os homens e as mulheres são livres e responsáveis pelos seus próprios destinos, e que não podem olhar para um Ser transcendente em busca de salvação. Rejeitamos a divindade de Jesus, a missão divina de Moisés, Maomé e de outros profetas e santos dos últimos dias das várias seitas e denominações.

Não aceitamos como verdadeira a interpretação literal do Antigo e do Novo Testamento, do Alcorão ou de outros documentos religiosos alegadamente sagrados, por mais importantes que sejam enquanto literatura. As religiões são fenómenos sociológicos generalizados, e os mitos religiosos persistem há muito na história humana. Apesar do facto de os seres humanos terem encontrado nas religiões uma fonte de elevação e de consolo, não consideramos as suas alegações teológicas verdadeiras. As religiões deram contributos tanto negativos como positivos para o desenvolvimento da civilização humana. Embora tenham ajudado a construir hospitais e escolas e, na sua melhor expressão, tenham incentivado o espírito de amor e caridade, muitas também causaram sofrimento humano ao serem intolerantes com aqueles que não aceitavam os seus dogmas ou credos. Algumas religiões têm sido fanáticas e repressivas, estreitando as esperanças humanas, limitando as aspirações e precipitando guerras religiosas e violência. Embora as religiões tenham, sem dúvida, oferecido conforto aos enlutados e aos moribundos ao apresentarem a promessa de uma vida imortal, também despertaram um medo e um pavor mórbidos. Não encontrámos nenhuma evidência convincente de que exista uma “alma” separável, ou que esta exista antes do nascimento ou sobreviva à morte.

Devemos, portanto, concluir que a vida ética pode ser vivida sem as ilusões da imortalidade ou da reencarnação. Os seres humanos podem desenvolver a autoconfiança necessária para melhorar a condição humana e levar vidas significativas e produtivas.

## A Razão

Vemos com preocupação o atual ataque dos não-secularistas à razão e à ciência. Estamos comprometidos com o uso dos métodos racionais de investigação, da lógica e da evidência no desenvolvimento do conhecimento e na verificação de alegações de verdade. Como os seres humanos são propensos a errar, estamos abertos à modificação de todos os princípios, incluindo aqueles que regem a investigação, acreditando que estes possam necessitar de uma constante correção. Embora não sejamos ingénuos ao ponto de acreditar que a razão e a ciência possam facilmente resolver todos os problemas humanos, sustentamos, não obstante, que podem dar um grande contributo para o conhecimento humano e ser benéficas para a humanidade. Não conhecemos nenhum substituto superior para o cultivo da inteligência humana.

## A Ciência e a Tecnologia

Acreditamos que o método científico, embora imperfeito, ainda é a forma mais fiável de compreender o mundo. Por isso, recorremos às ciências naturais, biológicas, sociais e comportamentais para obter conhecimento sobre o universo e o lugar do homem dentro dele. A astronomia e a física modernas abriram novas e empolgantes dimensões do universo: permitiram à humanidade explorar o cosmos por meio de viagens espaciais. A biologia e as ciências sociais e comportamentais expandiram a nossa compreensão do comportamento humano.

Estamos, assim, opostos em princípio a quaisquer esforços para censurar ou limitar a investigação científica sem uma razão imperiosa para o fazer. Embora estejamos conscientes, e nos oponhamos, aos abusos da tecnologia mal aplicada e às suas possíveis consequências prejudiciais para a ecologia natural do ambiente humano, instamos à resistência contra esforços irrefletidos para limitar os avanços tecnológicos ou científicos. Valorizamos os grandes benefícios que a ciência e a tecnologia (especialmente a investigação básica e aplicada) podem proporcionar à humanidade, mas reconhecemos também a necessidade de equilibrar os avanços científicos e tecnológicos com as explorações culturais na arte, na música e na literatura.

## A Evolução

Hoje, a teoria da evolução encontra-se novamente sob forte ataque por parte de fundamentalistas religiosos. Embora não se possa dizer que a teoria da evolução tenha atingido a sua formulação final, ou que seja um princípio infalível da ciência, está, não obstante, apoiada impressionantemente pelas descobertas de muitas ciências. Podem existir algumas diferenças significativas entre os cientistas relativamente aos mecanismos da evolução; contudo, a evolução das espécies é apoiada de forma tão sólida pelo peso das evidências que se é difícil a sua rejeição.

Por conseguinte, deploramos os esforços dos fundamentalistas (especialmente nos Estados Unidos) para invadir as salas de aula de ciências, exigindo que a teoria criacionista seja ensinada aos estudantes e que seja incluída nos manuais escolares de biologia. Isto constitui uma ameaça séria tanto para a liberdade académica como para a integridade do processo educativo. Acreditamos que os criacionistas devem, certamente, ter a liberdade de expressar o seu ponto de vista na sociedade. Além disso, não negamos o valor de examinar as teorias da criação em cursos educativos sobre religião e história das ideias; mas é uma farsa mascarar um artigo de fé religiosa como uma verdade científica e impor essa doutrina ao currículo científico. Se forem bem-sucedidos, os criacionistas poderão minar gravemente a própria credibilidade da ciência.

## A Educação

Na nossa opinião, a educação deveria ser o método essencial para a construção de sociedades humanas, livres e democráticas. Os objetivos da educação são múltiplos: a transmissão do conhecimento; a preparação para profissões, carreiras e cidadania democrática; e o incentivo ao crescimento moral. Entre os seus propósitos vitais deveria também estar a tentativa de desenvolver a capacidade de inteligência crítica, tanto no indivíduo como na comunidade.

Infelizmente, as escolas estão hoje a ser cada vez mais substituídas pelos meios de comunicação de massas como as principais instituições de informação e educação pública. Embora os meios eletrónicos ofereçam oportunidades sem precedentes para alargar o enriquecimento cultural, o lazer e poderosas oportunidades de aprendizagem, há um desvio grave dos seus propósitos. Nas sociedades totalitárias, os meios de comunicação servem como veículo de propaganda e doutrinação. Nas sociedades democráticas, a televisão, a rádio, o cinema e a edição de massas cedem demasiadas vezes ao mínimo denominador comum e tornaram-se desertos de banalidade. Existe uma necessidade premente de elevar os padrões de gosto e de apreciação.

De especial preocupação para os secularistas é o facto de os meios de comunicação (particularmente nos Estados Unidos) estarem desmesuradamente dominados por um pendor pró-religioso. As visões de pregadores, curandeiros pela fé e mercadores da religião passam, na maioria, sem contestação, e à perspetiva secular não é dada a oportunidade de uma audiência justa. Acreditamos que os diretores e produtores de televisão têm a obrigação de restabelecer o equilíbrio e rever a sua programação. Na verdade, há uma tarefa mais ampla que todos os que acreditam nos valores humanistas seculares democráticos reconhecerão: a necessidade de embarcar num programa a longo prazo de educação pública e esclarecimento sobre a relevância da perspetiva secular para a condição humana.

## Conclusão

O humanismo secular democrático é demasiado importante para que a civilização humana o abandone. As pessoas razoáveis reconhecerão certamente os seus profundos contributos para o bem-estar humano. No entanto, estamos rodeados por profetas da desgraça e do desastre, que desejam sempre retroceder o relógio da história, são anti-ciência, anti-liberdade, anti-humanos. Em contraste, a perspetiva secular humanista é fundamentalmente positiva, olhando para a frente com esperança e não para trás com desespero. Estamos comprometidos em estender os ideais da razão, da liberdade, da oportunidade individual e coletiva, e da democracia a toda a comunidade mundial.

Os problemas que a humanidade enfrentará no futuro, tal como no passado, serão sem dúvida complexos e difíceis. No entanto, se ela tiver de prevalecer, só o poderá fazer a mobilizar engenho e coragem. O humanismo secular deposita a sua confiança na inteligência humana e não na orientação divina. Céticos perante as teorias de redenção, condenação e reencarnação, os humanistas seculares tentam abordar a situação humana em termos realistas: os seres humanos são responsáveis pelos seus próprios destinos.

Acreditamos que é possível alcançar um mundo mais humano, baseado nos métodos da razão e nos princípios da tolerância, do compromisso e da negociação das diferenças. Reconhecemos a necessidade de modéstia intelectual e a vontade de rever crenças à luz da crítica. Deste modo, o consenso é, por vezes, alcançável. Embora as emoções sejam importantes, não precisamos de recorrer a panaceias de salvação, de escapar através da ilusão ou de dar algum salto desesperado em direção à paixão e à violência. Deploramos o crescimento de credos sectários intolerantes que fomentam o ódio. Num mundo mergulhado no obscurantismo e no irracionalismo, é vital que os ideais da cidade secular não se percam.


*A Declaração Humanista Secular foi redigida por Paul Kurtz, Editor da Free Inquiry.*

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## Apoios

A Declaração Humanista Secular foi apoiada pelos seguintes indivíduos:

(Embora nós, que apoiamos esta declaração, possamos não concordar com todas as suas disposições específicas, apoiamos, não obstante, os seus objetivos e direção gerais, e acreditamos ser importante que estes sejam enunciados e implementados. Apelamos a todos os homens e mulheres de boa vontade que concordam connosco para que se juntem a nós na ajuda para manter vivo o compromisso com os princípios da livre investigação e da perspetiva humanista secular. Sustentamos que o declínio destes valores poderá ter implicações ominosas para o futuro da civilização neste planeta.)

#### Estados Unidos

- **George Abell** (professor de astronomia, UCLA)

- **John Anton** (professor de filosofia, Emory University)

- **Khoren Arisian** (pastor, First Unitarian Society of Minneapolis)

- **Isaac Asimov** (autor de ficção científica)

- **Paul Beattie** (pastor, All Souls Unitarian Church; presidente da Fellowship of Religious Humanism)

- **H. James Birx** (professor de antropologia e sociologia, Canisius College)

- **Brand Blanshard** (professor emérito de filosofia, Yale)

- **Joseph L. Blau** (professor emérito de religião, Columbia)

- **Francis Crick** (laureado com o Prémio Nobel, Salk Institute)

- **Arthur Danto** (professor de filosofia, Columbia University)

- **Albert Ellis** (diretor-executivo do Institute for Rational Emotive Therapy)

-  **Roy Fairfield** (antigo professor de ciências sociais, Antioch)

- **Herbert Feigl** (professor emérito de filosofia, University of Minnesota)

- **Joseph Fletcher** (teólogo, University of Virginia Medical School)

- **Sidney Hook** (professor emérito de filosofia, NYU; investigador no Hoover Institute)

- **George Hourani** (professor de filosofia, State University of New York at Buffalo)

- **Walter Kaufmann** (professor de filosofia, Princeton)

- **Marvin Kohl** (professor de filosofia e ética médica, State University of New York at Fredonia)

- **Richard Kostelanetz** (escritor, artista e crítico)

- **Paul Kurtz** (professor de filosofia, State University of New York at Buffalo)  

- **Joseph Margolis** (professor de filosofia, Temple University)  

- **Floyd Matson** (professor de Estudos Americanos, University of Hawaii)  

- **Ernest Nagel** (professor emérito de filosofia, Columbia)  

- **Lee Nisbet** (professor associado de filosofia, Medaille)  

- **George Olincy** (advogado)

- **Virginia Olincy**

- **W. V. Quine** (professor de filosofia, Harvard University)

- **Robert Rimmer** (romancista)

- **Herbert Schapiro** (Freedom from Religion Foundation)

- **Herbert Schneider** (professor emérito de filosofia, Claremont College)

- **B. F. Skinner** (professor emérito de psicologia, Harvard)

- **Gordon Stein** (editor, The American Rationalist)

- **George Tomashevich** (professor de antropologia, Buffalo State University College)

- **Valentin Turchin** (dissidente russo; cientista de computadores, City College, City University of New York)

- **Sherwin Wine** (rabino, Birmingham Temple; fundador da Society for Humanistic Judaism)

- **Marvin Zimmerman** (professor de filosofia, State University of New York at Buffalo)

#### Canadá

- **Henry Morgentaler** (médico, Montreal)

- **Kai Nielsen** (professor de filosofia, University of Calgary)

#### França

- **Yves Galifret** (diretor-executivo, Union Rationaliste)

- **Jean Claude Pecker** (professor de astrofísica, Collège de France, Académie des Sciences)

#### Reino Unido

- **Sir A.J. Ayer** (professor de filosofia, Oxford University)

- **H.J. Blackham** (antigo presidente do Social Morality Council e da British Humanist Association)

- **Bernard Crick** (professor de política, Birkbeck College, London University)

- **Sir Raymond Firth** (professor emérito de antropologia, University of London)

- **James Herrick** (editor, *The Free Thinker*)

- **Zhores A. Medvedev** (dissidente russo; Medical Research Council)

- **Dora Russell** (Sra. Bertrand Russell) (autora)

- **Lord Ritchie-Calder** (presidente da Rationalist Press Association)

- **Harry Stopes-Roe** (professor coordenador de estudos científicos, University of Birmingham; presidente da British Humanist Association)

- **Nicholas Walter** (editor, *New Humanist*)

- **Baronesa Barbara Wootton** (vice-presidente da Câmara dos Lordes)

#### Índia

- **A. B. Shah** (presidente da Indian Secular Society; diretor do Institute for the Study of Indian Traditions)

- **V. M. Tarkunde** (juiz do Supremo Tribunal, presidente da Indian Radical Humanist Association)

#### Israel

- **Shulamit Aloni** (advogada, membro do Knesset, líder do Citizens Rights Movement)

#### Noruega

- **Alastair Hannay** (professor de filosofia, Universidade de Trondheim)

#### Jugoslávia

- **Milovan Djilas** (autor, antigo vice-presidente da Jugoslávia)

- **Mihailo Marković** (professor de filosofia, Academia Sérvia de Ciências e Artes e Universidade de Belgrado)

- **Svetozar Stojanović** (professor de filosofia, Universidade de Belgrado)

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## Informação Sobre este Documento
* Documento Original: [A Secular Humanist Declaration](https://secularhumanism.org/a-secular-humanist-declaration/)
* Autor: Paul Kurtz, The Council for Democratic and Secular Humanism (now the [Council for Secular Humanism](https://secularhumanism.org/what-is-secular-humanism/about-the-council-for-secular-humanism/))
* Data Original: 1980
* Tradução e Nota do Tradutor: Miguel Duarte (2026)

Este trabalho (tradução e nota do tradutor) está licenciado sob a **Licença Creative Commons: Atribuição - Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional (CC BY-NC-SA 4.0)**, sem prejudicar direitos do autor original.

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