Discussão e Notícias

Liberdade de expressão sob ataque (mais uma vez)

Diário Ateísta - Wed, 09/26/2012 - 23:26

Na Grécia, um homem de 27 anos, utilizador da internet foi preso e acusado de blasfémia por causa de uma página no Facebook onde faz uma sátira de um monge Ortodoxo Grego. A página “Geron Pastitsios” foi criada, um trocadilho com o nome do monge , Elder Paisios com um prato de comida. Nada de muito especial. Mas o “suficiente” para a ordem de prisão.

Leiam esta petição e assinem de forma a pressionar o Parlamento Grego abolir as leis anti blasfémia.

“Nós, cidadãos do mundo e defensores da liberdade de expressão, exigimos a imediata libertação do acusado e pedimos ao Parlamento Grego para abolir as leis anti blasfémia Gregas
Se a Grécia quer ser parte de um mundo globalizado deve aderir aos princípios de uma nação livre onde as pessoas têm o direito de ter um diálogo livre e aberto sobre todos os assuntos. Discussão, debate e acção são os blocos fundamentais de uma sociedade livre.”

Depois são apresentadas as leis da Constituição Grega que a petição pede para serem alteradas
Artigo 198 – Blasfémia maliciosa
Artigo 199 – Blasfémia relativamente a Religão

Esta petição é suportada pela The Humanist Union of Greece ~

E isto na Grécia, onde nasceu a democracia

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  3. Mais um vil ataque do fundamentalismo ateu?

Acha que sabe muito sobre liberdade de expressão? Sim? Então…

Diário Ateísta - Wed, 09/26/2012 - 18:04
...Então responda às perguntas seguintes na caixa de comentários deste artigo. Todos os acontecimentos se deram esta semana. Não vale ir ao Google (ou às redes sociais).
  1. No Egipto, um manifestante foi preso por rasgar um livro «sagrado». Esse livro era:
    1. O Corão;
    2. A Torá;
    3. A Bíblia;
    4. O livro de Mórmon;
    5. Outro.
  2. Um homem foi preso por comparar, no Facebook, uma figura religiosa a um prato de massa. O país é:
    1. A Tunísia;
    2. O Egipto;
    3. A Arábia Saudita;
    4. A Grécia;
    5. A Rússia.
  3. Um sacerdote disse que «nada está acima da liberdade de expressão». A sua religião é:
    1. O islão;
    2. O catolicismo;
    3. O cristianismo na variante evangélica;
    4. O budismo;
    5. A cientologia.
  4. Uma democracia «ocidental» bloqueou o filme «A Inocência dos Muçulmanos» no youtube. O país é:
    1. Os EUA;
    2. O Brasil;
    3. Portugal;
    4. A Polónia;
    5. A Irlanda.
  5. Um presidente disse «eu aceito que as pessoas me vão chamar coisas terríveis todos os dias, e defenderei sempre o seu direito de as dizer». O presidente é:
    1. Mahmoud Ahmadinejad;
    2. François Hollande;
    3. Giorgio Napolitano;
    4. Barack Obama;
    5. Cavaco Silva.

  6. Respostas dentro de 24 horas ou mais.
    [Esquerda Republicana/Diário Ateísta]

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  2. Muito respeitinho
  3. Liberdade de expressão

Os ricos que paguem a crise.

Diário Ateísta - Sun, 09/23/2012 - 04:07
É um chavão gasto mas, neste momento, faz sentido. Logo à partida porque aos pobres é obviamente impossível pagar seja o que for. Cobrar a maior fatia aos remediados também já se viu que não funciona. Sem grande surpresa, aliás. Economicamente, também seria uma boa medida. Um dos principais problemas estruturais da nossa economia é a má distribuição de rendimentos e da riqueza em geral (1). Além do impacto negativo a nível psicológico e social, da maior criminalidade à apatia cívica, esta injustiça constitutiva também deprime a economia. Um mercado livre funciona melhor quando o poder de compra está bem distribuído e pior quando uma minoria acumula muito mais riqueza do que quer gastar enquanto a maioria não consegue comprar quase nada. Aumentar os impostos aos ricos em vez de cortar prestações aos pobres seria economicamente mais proveitoso do que a “austeridade” defendida por quem anda de motorista.

Moralmente, também seria o mais justo, não só porque custa menos pagar quando se tem mais mas, especialmente, porque esta crise foi criada pelos ricos e para os ricos. Tanto a crise bancária internacional como a alavancagem do nosso sector privado e até a nossa dívida pública se devem principalmente a acções tomadas pelos ricos em seu proveito. O problema da nossa dívida pública está muito mais nos negócios como estádios, autoestradas, BPN, submarinos e PPP do que no dinheiro “esbanjado” a melhorar a educação ou a reduzir a mortalidade infantil.

Sobretudo, os ricos devem pagar a crise porque esta crise do Euro é, essencialmente, um problema de disparidades económicas regionais. Há muitos factores que contribuem para isto. Em Celorico de Basto, devido à infraestrutura e densidade populacional, o custo da educação por aluno, da saúde por utente e da canalização por habitação é muito maior do que em Lisboa. A economia predominantemente rural também faz com que o poder de compra e a produtividade em Celorico de Celorico de Basto sejam muito inferiores às de Lisboa. Perante isto há duas opções. Ou se exige que as pessoas de Celorico de Basto vivam de acordo com as suas possibilidades e abdiquem de luxos como escolas, médicos ou água canalizada; ou se admite que vivam acima do que podem pagar transferindo para lá dinheiro cobrado aos contribuintes de zonas mais ricas. Penso não ser preciso argumentar em favor desta última. É fácil perceber que atacar a desvantagem económica de Celorico de Basto aplicando um regime estrito de austeridade e eliminação de “gorduras” seria, além de injusto, uma parvoíce que só agravaria o problema fundamental.

O problema fundamental na União Europeia é o mesmo, só que entre países em vez de concelhos. Há países com melhor infraestrutura, mão de obra mais qualificada, melhor legislação e sociedades mais justas onde as pessoas acreditam que vale a pena ser honesto. Por exemplo, na Alemanha o ministro da defesa demitiu-se depois de se ter descoberto que tinha plagiado partes da sua dissertação de doutoramento (2). Por cá até lhes pode sair a licenciatura na farinha Amparo que poucos se incomodam. É preciso atacar estas disparidades resolvendo os problemas que se possa resolver, como a educação e a justiça, e compensando os que não têm remédio, como estar na periferia e ter menos recursos naturais. Mas isto não se faz cortando as pensões aos reformados de Celorico de Basto, fechando as escolas e aumentando os impostos aos seus trabalhadores. Estes problemas só se resolvem com investimento público. Ou seja, pondo os ricos a pagar.

Editado às 19:15 para corrigir o Celorico, que é de Basto e não de Baixo, e as sociedades. Obrigado ao Zarolho e ao João Vasco pelas correcções.

1- Económico, Portugal entre os países mais desiguais na distribuição de riqueza
2- Guardian, German defence minister resigns in PhD plagiarism row

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  1. "Quando os ricos fazem a guerra, são sempre os pobres que morrem." – Jean-Paul Sartre

Treta da semana (passada): o filme.

Diário Ateísta - Fri, 09/21/2012 - 15:46
“A inocência dos muçulmanos” é um filme horrível que, dizem, insulta Maomé (1). O filme foi produzido inicialmente com o título “Guerreiro do deserto” mas depois, sem conhecimento da maioria dos participantes, foi alterado para dizer mal de Maomé (2). A licença de filmagem foi obtida por uma organização fundamentalista cristã e o filme produzido foi por um cristão copta, aparentemente para chatear os muçulmanos (3,4). Depois de uns meses esquecido no YouTube, agora parece que suscita protestos violentos. Nos países mais civilizados, onde a religião tem menos poder, repudia-se a violência mas manifesta-se solidariedade com os muçulmanos ofendidos. No Brasil, até os participantes na Caminhada pela Liberdade Religiosa, ironicamente, condenaram o filme porque «desrespeita o profeta Muhammad»(5). Liberdade sim, mas respeitinho. Nos países e grupos onde o Islão tem mais influência o filme é desculpa para partir, incendiar e matar. Não é por ser uma religião mais violenta do que as outras, porque a violência de qualquer religião depende apenas do que lhe deixam fazer. Até o budismo, agora tão fofinho, foi bem tramado quando estava por cima (6). Também não é por a violência vir de quem não entende o verdadeiro Islão. Os que partem, incendeiam e matam são muçulmanos desde que nasceram. Têm tanta legitimidade como qualquer outro para dizer o que é verdadeiro na sua religião. O problema fundamental é a deturpação generalizada do tal “respeito”.

O respeito é a aversão a fazer mal ao outro. Portanto, não faz sentido respeitar crenças ou ideologias. Esse chavão comum, em qualquer discussão sobre crenças, de se dizer respeitador da opinião contrária é absurdo. Pode ser boa educação, como tirar o chapéu, mas não passa de um berloque retórico (7). E quando é levado a sério é uma chatice porque respeitar opiniões implica desrespeitar quem delas discorde. Eu não respeito o islamismo, nem o cristianismo nem o ateísmo, tal como não respeito a regra de três simples, nem a raiz quadrada de dois nem a Serra de Montejunto. Eu só respeito seres que sentem, como cães, golfinhos, macacos e humanos. Por isso não vou condenar ninguém por “insultar” o ateísmo, Darwin ou o Judo Clube de Odivelas e não vou “respeitar” crenças ou preconceitos em detrimento das pessoas.

Infelizmente, religiões e ideologias dessa índole têm de o fazer. Respeitar as pessoas implica, pelo menos, reconhecer-lhes liberdade de consciência e de expressão. Mas se uma religião não subjuga este respeito a um “respeito” ainda maior pelos dogmas que a identificam acaba por se desfazer ou por se transformar noutra que o faça. A violência à conta deste filme é apenas um de muitos exemplos do que acontece quando se respeita mais as ideologias do que as pessoas.

Pode-se dizer que este desrespeito não é a categorias religiosas abstractas sim às pessoas que se ofendem com o filme. Mas dá no mesmo porque o que ofende estas pessoas é o ataque ás suas crenças. A propósito do filme, a presidente da Federação Israelita do Estado do Rio de Janeiro disse que «são condenáveis quaisquer ataques a personalidades e símbolos religiosos», explicando que «Não gosto que façam com os meus, não farei com os outros»(5), mas é óbvio que esta não pode ser a justificação completa. Nem a ofensa é só questão de gosto nem o gosto justifica a condenação. A premissa implícita é de que esta categoria arbitrária das «personalidades e símbolos religiosos» merece mais respeito do que as pessoas a quem nega o direito de a “atacar”. E isto é verdade para a ofensa em geral. Sentir-se ofendido com a expressão de uma ideia não é um acto meramente passivo de desagrado. Exige decidir que essa expressão desrespeita alguma categoria que é ilegítimo desrespeitar, seja a profissão da mãe, a honestidade do clube ou a sacralidade do profeta. Ou seja, decidir que essa categoria merece mais respeito do que as pessoas.

As reacções ao filme, e as reacções às reacções, ilustram este problema fundamental na religião. Não acho o filme uma boa ideia, tal como não me agrada, por exemplo, alguns posts do Luís Grave Rodrigues (8). Por respeito pelas pessoas evito provocar só para chatear. No entanto, se alguém foi enganado e lhe posso explicar o embuste, maior desrespeito seria ficar calado e ajudar o vígaro com o meu silêncio. Por isso, chamo a treta pelo nome e quem se ofender que se ofenda. Seja como for, se respeitamos as pessoas temos de aceitar que se exprimam como entenderem, gostemos ou não. Até o tipo que fez este filme merece respeito e tem o direito de dizer o que pensa. Reprimir qualquer expressão por não se conformar a uma ideia do que é aceitável, próprio ou sagrado é “respeitar” a categoria desrespeitando a pessoa, um erro absurdo que é evidente em muitas facetas da religião. Na retórica vácua do respeito pelas opiniões quando o politicamente correcto o recomenda. Nas queixinhas de intolerância e ofensa quando faltam os argumentos para defender uma crença mais querida. Na importância auto proclamada das autoridades religiosas e na condenação de «quaisquer ataques a personalidades e símbolos religiosos». E, finalmente, na violência contra pessoas em nome de seres míticos e conceitos abstrusos. O traço comum nesta gama do inconsequente ao intolerável é sempre o de respeitarem mais os dogmas do que as pessoas. O caso à volta deste filme mostra-o claramente, felizmente sem sequer ser preciso ver o filme.

1- YouTube, Innocence of Muslims
2- Huffington Post, Anna Gurji & 'Innocence Of Muslims': Horrified Actress Writes Letter Explaining Her Role
3- Huffington Post, 'Innocence Of Muslims' Shot On Hollywood Set, Film Permit Connected To Christian Charity
4- Huffington Post, Christian charity, ex-con linked to film on Islam
5- ECB, Caminhada da Liberdade Religiosa condena filme com ataque a Maomé
6- Wikipedia, Human Rights in Tibet, the teocratic system
7- Por exemplo, estes posts do JFD, Ateísmo, Ateísmo, uma re-resposta., Ateísmo, finalizando, têm sempre a ressalva do respeito pelo ateísmo e outros ismos em geral. O que não é claro é que diferença isso faz.
8- Como estes Conversas com Deus, Pai. Não é o meu estilo. Mas, ao contrário da presidente da Federação Israelita do Estado do Rio de Janeiro, não defendo que se proíba só por isso.

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  3. Treta da semana: o que eles querem sei eu.

Vida de casado…

Diário Ateísta - Fri, 09/21/2012 - 03:23

Antes de casar, Jesus era um verdadeiro borgas, transformar água em vinho, meter-se com prostitutas. Agora…

 

The Colbert Report Mon – Thurs 11:30pm / 10:30c
Wife of Jesus
www.colbertnation.com
Colbert Report Full Episodes Political Humor & Satire Blog Video Archive

 

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Está na altura de dizer chega!

Diário Ateísta - Thu, 09/20/2012 - 02:22

“ O semanário francês Charlie Hebdo voltou a publicar hoje uma série de caricaturas do profeta Maomé, numa altura em que a polémica acerca do filme anti-islão, “A Inocência dos Muçulmanos”, tem causado a indignação em vários países árabes, aumentanto a tensão social e gerando perigosas ondas de violência. O Governo francês alertou já que a publicação das caricaturas também poderá gerar violência em França e agravar a situação no mundo árabe. Como medida de precaução, as embaixadas francesas foram colocadas em estado de alerta máximo, por se temerem represálias contra alvos gauleses em todo o mundo. ”

Ver aqui

O Governo francês decidiu proibir as manifestações de muçulmanos marcadas para este sábado, para protestar contra o polémico vídeo “A Inocência dos Muçulmanos”. Durante os últimos dias as redes sociais têm estado muito ativas, com os muçulmanos a residir em França a convocarem manifestações para Paris, Marselha e outras cidades do país.

Em declarações à rádio RTL, o primeiro-ministro francês,Jean-Marc Ayrault, afirmou que “Não há nenhuma razão para deixarmos um conflito que não nos diz respeito entrar no nosso país”, adiantando que a França “não se deixa intimidar por ninguém”.

Ver aqui.

 Realmente, está  na altura de dizer aos muçulmanos que estão “ofendidos” que não vamos pedir desculpa, que não seremos intimidados, que não os iremos acomodar.

Que esses muçulmanos queiram viver na idade da pedra, é uma prerrogativa que lhes assiste. Mas não irão carregar o resto do mundo civilizado para um abismo de violência à mínima “provocação”.

Juntem-se ao século 21 ou saiam da frente do progresso civilizacional.

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Quiçá ingénuo

Diário Ateísta - Sun, 09/16/2012 - 08:13

Há mais de trinta anos que não ia a uma manifestação, o que significa que nunca tinha ido a uma enquanto adulto. À de ontem tinha que ir. Era obrigatório. Precisava de ir. E fui…

Ontem foi um dia que fará a diferença. Deixem-me ser optimista e, quiçá, ingénuo, mas espero que estejamos não só no início da queda deste governo, mas sim no início de um novo paradigma político em que o Estado sejamos todos e em que não seja passado um cheque em branco por quatro anos a qualquer governo, seja qual for a cor do mesmo.

Que este seja o início de uma época em que os governos sejam obrigados a cumprir as promessas eleitorais e que sejam constitucionalmente impedidos de agirem de outra forma;

Que este seja o início da democracia se tornar digna desse nome e as grandes decisões para o país sejam sempre tomadas em referendo pelo povo;

Que este seja o início de uma nova consciencialização política de um povo que tem optado pela abstenção, abdicando da força da sua união;

Que este seja o início da esperança e que a desculpa dos indicadores económicos não sirva para transformar os poderosos em carrascos de quem precisa de trabalhar arduamente para ter uma vida digna;

Que este seja o início da criação de um novo propósito nacional de dignificar o seu povo e não de o amordaçar no medo do descalabro dos banqueiros e das grandes empresas;

Que esteja seja o início de um processo incubador de novos políticos e dirigentes que respeitem os seus concidadãos e que actuem com espírito de missão, honestidade e sentido de Estado;

Que este seja o início de um novo “Nós”;

Que este seja o início de uma revolução de mentalidades, pois só essa é a verdadeira revolução;

Ingénuo, provavelmente, quiçá?

 

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Uma hipótese.

Diário Ateísta - Sat, 09/15/2012 - 10:01
O Passos Coelho quer passar 2.500 milhões de euros de TSU dos trabalhadores para as empresas. Por ano. Digo que é o Passos Coelho porque não há consenso nisto nem no PSD nem no governo. Que o Passos Coelho faça coisas com “custos políticos” (i.e. contra o que prometeu e para que foi eleito) não me admira. Ele já deve contar reformar-se nas próximas eleições, com cargos de gestão em meia dúzia de empresas. O estranho é fazer algo que ameace até os tachos dos colegas, do PSD e arredores. Tem de haver uma razão para isto.

O combate ao desemprego não é certamente. Ao contrário do que apregoa a propaganda de direita, as empresas não servem para dar trabalho. Servem para dar lucro. Com a economia nas lonas, nenhum empresário vai estoirar dinheiro em novos empregados para produzir o que não consegue vender. Ainda por cima, haverá menos poder de compra. Se a quebra no consumo fosse igual ao ganho das empresas isto seria só mau para os trabalhadores. Só. Mas o consumo não é função apenas do rendimento presente. É também afectado pela perspectiva de rendimentos futuros. Por exemplo, o rendimento do meu agregado familiar diminuiu significativamente nos últimos anos, mas fizemos por saldar dívidas e conter despesas. Agora temos menos dinheiro em caixa mas sobra-nos mais por mês. Muita gente não consegue cortar mais, é verdade, mas esses também pouco podem consumir. E quem está um pouco melhor, à cautela, acaba por cortar mais no consumo do que lhes cortam no rendimento. A austeridade agrava este ciclo vicioso e as empresas sabem disso (1).

O aumento da competitividade pelo “ajuste” dos salários é outra treta. A premissa é de que não somos competitivos porque ganhamos demais, e que ganhando menos exportaremos muito. Duvido. Se fosse verdade, o Burquina-Faso era um colosso na economia mundial e os suíços andavam a côdeas. A competitividade também depende de infraestrutura, capacidade de produção, trabalhadores qualificados, serviços públicos decentes e mais uma data de coisas que não se consegue pela austeridade do tudo a um euro. A China compensa algumas falhas escravizando o pessoal, mas têm muita infraestrutura industrial e lá não há a opção do vão-se foder que eu vou para o estrangeiro. Por cá, o que vamos conseguir com o “ajuste” é afugentar uma boa parte das pessoas que mais precisamos para pôr isto a funcionar.

A questão então é por que é que o Passo Coelho quer fazer algo que lhe tira votos, lixa os trabalhadores, estraga a economia e prejudica as empresas. Se não teve um AVC então alguém vai lucrar com isto. A minha hipótese é que são os banqueiros. A primeira pista está logo no CV do Passos Coelho (2). A sua experiência profissional, com ênfase nas finanças, sugere que os seus amigos não são nem quem vende o seu trabalho nem quem lucra com o trabalho dos outros. São os que emprestam dinheiro a quem vende o trabalho de terceiros.

Outra pista encontrei num post do João Rendeiro. Gosto do blog dele porque acho que, em matérias de facto, ele é uma autoridade fiável nestas coisas e porque, em questões de valor, a posição dele é tão oposta à minha que acaba por ser fiável também. Por exemplo, «Passos Coelho ganhou o raro estatuto de Estadista»(3). Basta mudar a última palavra que já fica bem. E a escolha é ampla. Quanto aos factos, Rendeiro alega que «Passos Coelho e Gaspar (e Portas já agora) têm em definitivo a confiança dos nossos credores», justifica a “desvalorização interna” pela «transferência significativa de recursos do consumo para o investimento» e aponta que esta «é uma medida altamente favorável ao Capital e um atentado aos direitos adquiridos dos trabalhadores» (3). Ou seja, o propósito é tirar dinheiro aos trabalhadores e passá-lo para o Capital. O tal “nós” nos «nossos credores» do Rendeiro, que não é o Estado mas sim a banca.

Em Junho, a dívida do governo ao estrangeiro era de 116 mil milhões de euros. A da banca era de 270 mil milhões (4). Como tem sido regra nesta crise mundial, o problema principal está na banca. E se as empresas não puderem saldar as suas dívidas os bónus dos banqueiros ficam mais pequenos. O ajuste na TSU combate este problema. Não é uma “desvalorização interna” como a de 1977. A inflação e a taxa de câmbio afectam todo o dinheiro, incluindo o que está no banco, e não apenas o rendimento de quem trabalha. A “desvalorização interna” do Passos Coelho é cirúrgica. Não toca nas fortunas nem no dinheiro em caixa. À partida duvidei que isto fosse uma hipótese plausível porque tirar dinheiro dos particulares para dar às empresas reduz o crédito mal-parado num lado mas aumenta-o no outro. Não parecia adiantar de nada. Só que enquanto os empréstimos às empresas são de 45 mil milhões de euros por ano, às famílias à banca empresta apenas 11 mil milhões, e uma boa parte em crédito à habitação. Além disso, metade dos empréstimos às empresas são de mais de um milhão de euros (5). As comissões desses devem ser jeitosas. Por isto tudo, parece-me que a alteração na TSU é um favor aos banqueiros.

Não é um favor à banca. A longo prazo, se estragam a economia a banca sofre também. Mas para um banqueiro a gerir linhas de crédito de milhões, aguentar os pagamentos e as comissões mais um ano ou dois pode fazer uma grande diferença. Uma boa almofada para aguentar a austeridade, mesmo que depois vá tudo ao charco e o contribuinte fique com a conta. Foi com esta ganância que a crise começou. Não me admira nada se for assim que continua.

Corrigido, a 15-9, porque os valores de 45 mil milhões e 11 mil milhões não são a dívida total mas sim o volume de empréstimos (em 2011). Na dívida total a proporção é diferente porque os empréstimos às famílias têm, em média, um prazo de pagamento muito maior. Mas o que importa para os banqueiros é o volume do negócio, e das comissões, e não a dívida total. Agradeço a dica ao leitor que muda sempre de nome.

1- Eg. Nestlé receia perder mais do que ganha com mudanças na TSU, Em Portugal 'é tudo navegação à vista' ou, para quem tiver menos tempo, "Bardamerda e caladinhos": a austeridade em 30 segundos
2- Aqui, em pdf.
3- João Rendeiro, Passos Coelho e a desvalorização interna
4- Banco de Portugal, Gross External Debt Position
5- Pordata, Montantes de empréstimos a particulares: total e por tipo de finalidade – Portugal e Montantes de empréstimos a empresas: total e por escalão de crédito (dados de 2011).

A grande prostituta

Diário Ateísta - Fri, 09/14/2012 - 15:21
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Já sabemos que os cristãos evangélicos americanos acham que a Igreja Católica é “a grande prostituta”. Tem a ver com fornicação, quem é a mãe de quem, quem são os anti-cristos, as cores do Vaticano, pedras preciosas, a idolatria de ídolos e outras coisas que fazem suspirar de excitação este pessoal que anda a discutir o “sexo dos anjos” (ou neste caso, a falta de sexo dos anjos) sem perceber que as suas crenças são tão ridículas como aquelas que criticam.

Mas há uma “prostituta” que ainda é mais interessante de seguir. Afinal, quando se gasta uma vida a ser-se um dos mais extremistas defensores do deus evangélico, é muito interessante ver que, quando se trata de “interesses”…deus pode esperar.

Parece que o deus dos Mormons (e quem segue estas coisas sabe perfeitamente que os evangélicos pensam nos Mormons como um culto) afinal é um deus que “interessa” ao “nosso” Pat


Pat Robertson é uma pobre desculpa para um ser humano e felizmente já não falta muito para nos vermos livres dele.

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  1. “Alá é grande”
  2. A grande peregrinação
  3. Vaticano: “mulheres padres são um crime tão grande como a violação de crianças”

Isto continua a ser estupido!!

Diário Ateísta - Fri, 09/14/2012 - 14:55

O Rui já apresentou o que está a acontecer no médio-oriente por causa do trailer do filme “A inocência dos muçulmanos”.

Um qualquer atrasado mental “chamado” Sam Bacile, que mente com todos os dentes (na idade, no dinheiro que tinha para fazer o filme, na forma como enganou os actores que entram no trailer), quis fazer um filme com o dinheiro da família da mulher que pertence ao secto dos cristãos coptas (recebeu da família da esposa 60.000 dólares aparentemente). O trailer aparece no YouTube, onde só teve 6.000 visitas de Julho até Setembro. Depois alguém colocou legendas em arábico, a partir daí foi noticiado pelo Observatório Islâmico do Reino Unido, chegando finalmente ao canal televisivo Al-Nas no Egipto.

E uma coisa sem qualidade, sem importância, sem qualquer fundamento ou interesse, é agora motivo para milhares de muçulmanos em protestos. Pessoas já morreram em nome do “ultraje” muçulmano.

Para além do mais óbvio, e mais uma vez necessário repetir, que a religião, mais uma vez envenena a Humanidade e a convivência numa sociedade global, há que pensar num outro problema bem mais grave.

Para além do fanatismo religioso, há outra coisa igualmente importante de referir.

É verdade que os liberais tendem a pensar que não deve haver uma tendência para pensar em certas culturas como superiores a outras, mas isso não é verdade. Umas culturas são melhores que outras. No ocidente, a liberdade de expressão não é regulada a nível governamental. Existem outlets para expressar opinião, canais de televisão, rádios e jornais privados, social media (Facebook, Twitter), blogues, sites da internet, etc.

Em países muçulmanos, todos os conteúdos são controlados pelo governo e por “polícias da moralidade”. Assim, para um muçulmano em Egipto, no Iémen e na Líbia, é fácil pensar que o governo Dinamarquês, ou Americano, ou Inglês, estão por detrás destes “ataques às sensibilidades religiosas”. E selvagens como são, matam pessoas, destroem propriedade, queimam bandeiras.

E os ocidentais (alguns pelo menos) derretem-se em desculpas. Pedem imensa desculpa. Mostram todas as desculpas. E desculpam-se mais uma vez. É uma idiotice! É uma forma de capitulação.

O que deve ser feito, é de uma forma firme e determinada, mostrar a todas estas “virgens ofendidas” que assim é viver numa “aldeia global”. Existe sátira, existe humor, existe estupidez, existe malicia. Mas a resposta não deve ser, não pode ser, sempre a mesma por parte dos muçulmanos: violência e barbárie.

Os muçulmanos precisam de saber que, nós também nos ofendemos, neste caso, com a sua intolerância, a sua mentalidade criminosa, o estorvo ao progresso civilizacional.

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Acender um rastilho

Diário Ateísta - Fri, 09/14/2012 - 08:41

“A Inocência dos Muçulmanos” já pode ser chamado de segundo capítulo da saga iniciada com as caricaturas dinamarquesas, aparentemente tendencioso e de qualidade duvidosa, mas um exercício de liberdade de expressão. Um irresponsável filme de série Z (confirmar mais abaixo) a fazer pouco do islão e dos muçulmanos, publicitado pelo extremista Terry Jones (o mesmo da queima do Corão), detonou uma bomba, com os responsáveis temporariamente “desaparecidos” e os actores a retrairem-se e a declararem-se “enganados”.

«Do filme de duas horas conhecem-se apenas excertos, publicados no YouTube numa espécie de trailer em que os muçulmanos são apresentados como imorais e violentos. O profeta Maomé é ridicularizado. Aparece em diversas cenas de sexo, com mulheres e com homens, aprova o abuso sexual de crianças, aponta para um burro como “o primeiro animal muçulmano”. É ainda dito que o Corão não teve inspiração divina, que foi escrito a partir da Tora e do Novo Testamento.»[Público]

Resultados? Uma série de confrontos em países de maioria muçulmana, nomeadamente contra as representações diplomáticas americanas, entre a Líbia - com a morte do embaixador norte-americano em Benghasi, sendo que os EUA até enviaram navios de guerra para a zona -,  Egipto – 220 feridos, destaque para uma carta de condolências da Irmandade Muçulmana, partido vencedor das eleições, onde se referem a “abusos da liberdade de expressão” -, Tunísia, Iémen (dois mortos), Líbano – um morto; um ataque a um restaurante da KFC; não esquecer que Ratzinger está a visitar o país -, Sudão, Iraque, Bangladesh, Palestina e Israel.

Reacções de chefes de estado, com alguns apelos à condenação dos autores do filme, mas não deixando de condenar também a violência que originou. Obama pediu desculpas e secalhar não precisava, mas subentenda-se que o terá feito para amenizar a situação.

Mas destaquem-se as palavras da Secretária de Estado Hillary Clinton: «nos EUA “todos têm o direito de exprimir o seu ponto de vista, por mais repugnante ou repreensível que seja” e considerou que “a violência como resposta à liberdade de expressão é simplesmente inaceitável”.»

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Ateísmo e confusão.

Diário Ateísta - Thu, 09/13/2012 - 06:11
O JFD escreveu que «em relação ao ateísmo [...] fica por compreender a razão da sua afirmação identitária tendo por constante as referências a pressupostos religiosos», acrescentando que falta ao ateísmo «um corpus ideológico coerente e um mecanismo de atuação política que não passe pelo mero ataque a todas as manifestações de fé». Escreveu também que a atitude do ateísmo é «tão vil, desnecessária e fanática quanto os movimentos de evangelização violenta ou as guerras santas»(1). Penso que o JFD tem razão em que lhe ficou por compreender algumas coisas acerca do ateísmo. Espero que isto ajude. O ateísmo não tem um «corpus ideológico coerente» porque o termo foi inventado para acusar outros de não terem o deus certo. Hoje já não dá castigo, por isso não me importo de aceitar o rótulo, mas, tal como “herege”, “pagão” e “apóstata”, o termo “ateu” só existe por causa dos religiosos. A religião criou um termo para distinguir coisas sem diferença, e é daí que vem tanta confusão.

Em matérias de facto, “ateísmo” é mais uma expressão de desagrado por parte do crente do que uma categoria coerente. No caso geral, dar a cada hipótese apenas o crédito que as evidências justificam é considerado sensatez. Isto quer se trate da venda de automóveis usados, dos benefícios da banha da cobra ou das alegações das outras religiões. Um católico dirá ser sensato rejeitar as hipóteses de que Maomé tenha conversado com os anjos ou que Zeus controla as trovoadas. Não rotulará ninguém de ateu por isso. Mas quando o mesmo critério, com o mesmo nível de exigência, leva à conclusão de que Deus não existe, em vez de sensatez chamam-lhe ateísmo. Não é por haver mais evidências para Deus do que para Zeus. Não é por aceitar alegações com base na tradição, fé ou número de adeptos ser um método mais fiável. É simplesmente porque não lhes agrada a conclusão de que Deus não existe. Para não darem o braço a torcer, em vez de admitirem que é uma conclusão razoável rotulam-na de “ateísmo”. Não me importo que o façam. É só um nome. Mas depois não venham pedir «corpus ideológico». Se não é preciso isso para rejeitar a mitologia grega, também não é preciso para rejeitar a mitologia cristã.

Em questões de valor, “ateísmo” pode também referir a atitude pessoal de não venerar divindades. Isto é independente das opiniões acerca dos factos. É logicamente possível, se bem que improvável, surgirem dados que tornem a hipótese de um deus criador a explicação mais plausível para o universo. Se isso acontecer passarei a aceitá-la como factualmente correcta. No entanto, posso continuar ateu se não adoptar esse criador do universo como meu deus. Não é por ter criado o universo que me vou pôr a louvar o seu nome, a venerá-lo ou a rezar. Inversamente, também posso deixar de ser ateu sem mudar de opinião acerca dos factos. Basta venerar algo como um deus. O Sol, por exemplo, ou o Joe Pesci*. Também aqui o ateísmo não requer «um corpus ideológico coerente». Não tenho deuses porque não quero. Se quisesse tinha. Também não quero ter uma moto, nem um barco nem um urso, mas não preciso de fundamentar com um «corpus ideológico» o meu amotismo, abarquismo e aursismo.

Num post posterior, o JFD escreveu «Não considero o ateísmo uma religião mas antes uma posição filosófica face àquela.»(2) O ateísmo não é uma religião, concordo, mas também não é uma posição filosófica. O ateísmo é apenas uma parte de uma posição filosófica. Em matérias de facto, eu tenho uma posição filosófica fundamentalmente céptica, considerando que uma hipótese só merece confiança se tiver mais fundamento objectivo do que as alternativas. Em questões de valor, a minha posição filosófica tem com fundamento a liberdade e a responsabilidade individual. Estas posições filosóficas fazem com que concorde com os religiosos em muitos pontos, desde a forma da Terra à condenação do homicídio, mas leva-me a discordar de outros, como a ressurreição e o pecado da contracepção. O meu ateísmo não corresponde às minha posições filosóficas em si. É só aquelas pequenas pontas que incomodam os religiosos. É verdade que o ateísmo acaba por ser definido em oposição às religiões, mas isto é porque são os religiosos que assim o definem. No tempo dos gregos que cunharam o termo eu seria ateu por rejeitar Zeus. Hoje é por rejeitar o Espírito Santo. A diferença não está na minha posição filosófica, pois considero ambos igualmente fictícios. A diferença está apenas nas partes da minha posição filosófica que contradizem as crenças religiosas dominantes.

Finalmente, chamam também ateísmo, normalmente “fanático” e “radical”, à critica pública de coisas como as capelanias militares ou a cura milagrosa do olho da Guilhermina. Estas críticas são em oposição a alegações religiosas, é verdade, mas não constituem «afirmação identitária» nem ideologia. Mais uma vez, são apenas parte de um todo muito maior. Eu considero que é um direito e um dever protestar contra as injustiças e disparates. Oponho-me à isenção do IVA para a Igreja Católica tal como me oporia se isentassem de IVA a associação de amigos do Homem Aranha. Sou contra as capelanias militares tal como sou contra a RTP contratar astrólogos para prever o futuro na televisão. Só inventaram o rótulo de “ateísmo” para uma parte disto, que até condenam como «tão vil, desnecessária e fanática quanto os movimentos de evangelização violenta ou as guerras santas», por julgarem que as superstições e fantasias de certa religião são mais verdadeiras ou virtuosas do que as restantes. Mas não são. Treta é treta. Se o JFD perceber que “ateísmo” é apenas um termo arbitrário que os crentes usam para rotular a oposição às suas crenças perceberá também que não é nesse pequeno sub-conjunto que vai encontrar «corpus ideológico» ou «afirmação identitária». Não é o ateísmo que me faz opor as religiões. É ver as religiões ao nível de tantos outros disparates que a humanidade inventou que faz com que me chamem ateu.

* Ou o George Carlin, mas isso talvez já fosse ironia a mais.

1- JFD, Ateísmo.
2- JFD, Ateísmo, uma resposta.

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Treta da semana: não há lixo.

Diário Ateísta - Sun, 09/09/2012 - 15:48
Segundo um artigo recente na Nature, cerca de 80% do genoma humano tem “funções bioquímicas” (1). Esta expressão deliberadamente ambígua levou os criacionistas (2) e a imprensa (3) a apregoar que não há lixo no genoma, que «O "lixo" do nosso ADN é afinal um interruptor fundamental». Não é nada disso. O problema é que os autores usaram uma definição de funcionalidade muito diferente daquela que se usa para distinguir entre ADN funcional e ADN não funcional, o tal “junk DNA” que tanto ofende os criacionistas. Como admite o próprio Ewan Birney, o coordenador da análise de dados do consórcio ENCODE:

«nós definimos o nosso critério como “actividade bioquímica específica” [No entanto] usando definições clássicas e muito estritas de “funcional” [...] vemos uma ocupação acumulativa de 8% do genoma»(4)

Ou seja, o valor de 80% refere-se apenas à definição deles, segundo a qual um trecho de ADN é “funcional” se interagir de forma reprodutível com alguma molécula da célula. Mas isto não implica funcionalidade no sentido mais consensual de ser benéfico para o sucesso reprodutivo do organismo. Por exemplo, a maior categoria de “funcionalidade bioquímica” é a do ADN que é transcrito em ARN, e que corresponde a cerca de 60% do genoma humano, segundo os dados do ENCODE. A síntese de ARN complementar a um trecho de ADN é o primeiro passo para a síntese de proteínas. Mas, a seguir, deste ARN são removidos os intrões, trechos da molécula que não farão parte da síntese da proteína. Dos intrões praticamente nada contribui para o sucesso do organismo*, e o que sobra, os exões, é a menor parte. As sequências de aminoácidos de todas as nossas proteínas estão determinadas em apenas 1% do nosso ADN.

As outras grandes categorias de “funcionalidade bioquímica”, como definida pelo consórcio ENCODE, são a das regiões com histonas modificadas e a das regiões sensíveis às desoxiribonucleases (DNases). Estas “funcionalidades” também não implicam que o ADN seja funcional no sentido comum do termo. As histonas formam o esqueleto proteico dos cromossomas, que segura o ADN, e as modificações químicas nestas proteínas ajudam a regular a actividade de cada região. No entanto, as modificações químicas das histonas tanto podem promover como reprimir a expressão do ADN, e é de esperar que ADN que não seja funcional esteja marcado como tal pelas histonas que o suportam. Quanto às hipersensibilidade às DNases, se bem que seja uma característica típica de regiões activas do ADN, é também comum em zonas inactivas. As DNases cortam o ADN, e fazem-no mais facilmente onde o ADN está mais acessível. Em muitos casos, isto corresponde às regiões activas porque, nessas, o ADN precisa de estar exposto às várias proteínas que se encarregam da transcrição e regulação dos genes. No entanto, além de que muito do que é transcrito não beneficia o organismo, também zonas inactivas do ADN podem estar expostas às DNases.

Além da confusão sobre o que é funcional, há também a ideia de que se designa partes do ADN como “lixo” só porque não se sabe para que servem ou por mero palpite. «O resto do genoma foi inicialmente chamado de "ADN lixo", porque foi considerado inútil», escreve a jornalista no DN (3). Na verdade, o termo “lixo” veio da estimativa de que grande parte da sequência do nosso genoma não pode ser evolutivamente importante porque, se fosse, a quantidade de mutações prejudiciais por geração seria grande demais para a selecção natural eliminar (5). Esta estimativa foi confirmada experimentalmente pela quantificação das mutações que persistem. Apenas 5-10% do nosso genoma está sujeito a uma selecção negativa, que elimina tendencialmente alterações à sequência. No resto vale tudo, o que demonstra que não pode ser muito importante.

Isto não quer dizer que o ADN fora dessas zonas não sirva para absolutamente nada. Os cromossomas têm estruturas tridimensionais complexas, e pode ser que partes do ADN desempenhem aí alguma função. Quanto mais não seja fazer espaço, para umas partes ficarem adequadamente posicionadas em relação a outras. Mas é claro pela comparação de sequências que, na maioria do nosso genoma, a sequência do ADN é irrelevante para o sucesso do organismo. É isso que se designa por “junk DNA”. Os resultados do ENCODE não alteram essa conclusão nem explicam o genoma da cebola (6). Infelizmente, nem os criacionistas nem os jornalistas vão perder tempo a perceber o assunto quando papaguear “grande descoberta!” lhes dá tanto jeito.

* Alguns intrões têm papeis de regulação ou criam regiões alternativas de corte que permitem gerar proteínas diferentes. No entanto, em geral, a maior parte da sequência de cada intrão é irrelevante para o organismo.

1- The ENCODE Project Consortium, An integrated encyclopedia of DNA elements in the human genome
2-Evolution news and views, Junk No More: ENCODE Project Nature Paper Finds "Biochemical Functions for 80% of the Genome".
3- E.g. Guardian, Veja,DN
4- Susumu Ohno, So much 'junk' DNA in our genome. Brookhaven Symposia in Biology No 23. 1972. Encontrei o texto integral aqui, mas o site parece-me manhoso.
5- Ewan Birney, ENCODE: My own thoughts
6- O teste da cebola.

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