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Natural..mente

Naturalmente, não sei... - Sun, 10/16/2016 - 09:07

Factos, valores e raciocínio, parte 1.

Diário Ateísta - Fri, 12/07/2012 - 10:48
No seguimento da conversa sobre a homeopatia (1), o Desidério tentou descrever como devemos «pensar sobre problemas morais e políticos»(2). A intenção foi boa. A execução é que não. Concordo que o problema principal é não haver «um tribunal de última instância a que possamos recorrer» para determinar os valores correctos. Os valores são critérios de preferência, necessariamente subjectivos, pelo que é inútil argumentar com quem discorda dos nossos valores assumindo como premissa que os nossos são melhores. Infelizmente, o Desidério ignora as suas próprias recomendações. «Um aspecto curioso do cientificismo é a ideia de que tudo o que não é ciência não tem qualquer interesse nem valor cognitivo. Logo, é irrelevante o conhecimento da história e da filosofia, porque essas coisas não são científicas. A ironia é que quem assim pensa depois raciocina sobre questões políticas e morais à toa, sem qualquer conhecimento do que distingue um raciocínio plausível nestas áreas de um raciocínio ingénuo.»(2)

O Desidério considera que um raciocínio moral que descure a história e a filosofia é ingénuo porque o Desidério dá valor à história e à filosofia. Não dando o mesmo valor à astrologia, por exemplo, o Desidério não considera que um raciocínio moral será ingénuo só por ignorar signos e horóscopos. Mas isto resulta dos valores do Desidério. Se à pessoa hipotética que o Desidério critica só importa “o que é ciência”, ela também não julgará ingénuo ignorar a filosofia. Isto não é um problema no raciocínio. É apenas consequência dos seus valores e, sem um “tribunal de última instância” para estes, não se pode classificar um raciocínio de “ingénuo” só por partir de valores diferentes. Além disso, o Desidério critica um espantalho. Qualquer pessoa dá valor a coisas “que não são ciência”, nem seja ir à casa de banho quando está aflito, dormir descansado e não levar pontapés na cara. O Desidério assume um ser inexistente que só dá valor ao “que é ciência” para concluir que é ingénuo ter valores diferentes dos do Desidério e depois afirma que «temos de levar muito a sério o que as pessoas que estão em conflito connosco realmente pensam». Ao contrário dos valores, que são subjectivos, um raciocínio pode ser objectivamente incorrecto. Este é um bom exemplo disso.

Mais à frente, o Desidério agrava a confusão quando invoca Rawls. Uma forma de conceber a justiça é imaginar que estamos a criar leis e regras morais para uma sociedade antes de saber se vamos nascer ricos ou pobres, rapazes ou raparigas, bonitos ou feios, fortes ou fracos e assim por diante. Esta ideia de Rawls é boa porque, atrás deste véu de ignorância, podemos identificar valores consensuais distintos dos que somos tentados a defender quando já sabemos o que nos calhou. Por exemplo, um rico pode achar que não devia pagar tantos impostos mas, se não soubesse se ia nascer numa família rica ou pobre, provavelmente veria com melhores olhos a redistribuição fiscal. No entanto, a abordagem de Rawls não serve quando os próprios valores estão em causa. Quem gosta mais de arriscar irá preferir uma sociedade com menos redistribuição e mais oportunidades de enriquecimento enquanto que alguém avesso ao risco preferirá mais apoio social mesmo à custa de mais impostos. Esta experiência conceptual de Rawls é boa para identificar os nossos valores mais fundamentais e derivar deles regras sociais mas não serve para resolvermos divergências entre esses valores.

É por isso que esta forma de pensar sobre o problema da homeopatia não serve: «eu não sei se serei como sou — sensato, científico e tudo isso — ou um tresloucado. [...] Fazendo este simples exercício torna-se óbvio que não tem qualquer relevância que os tresloucados realmente sejam tresloucados e não tenham razão [e] a minha preocupação [é que todos se sintam] tão bem nessa sociedade quanto possível, sem prejudicar o outro». Isto pode ser óbvio para o Desidério mas não é consensual. O Desidério prefere uma sociedade onde as pessoas se “sintam tão bem quanto possível” mesmo que vivam enganadas. Eu, pelo contrário, dou mais valor à verdade e prefiro uma sociedade que distinga entre verdade e falsidade mesmo que isso seja desconfortável. Principalmente quando se trata do Estado certificar profissões, que é o que estamos a discutir para a homeopatia. Nesse caso parece-me óbvio que importa saber se estão a certificar algo que é verdade ou as parvoíces de algum tresloucado.

Finalmente, o Desidério alega que «no caso da homeopatia [e] no caso do ensino do criacionismo aos filhos dos criacionistas [não] há conflitos inequívocos de interesses. De uma parte há apenas um interesse vago em excluir da nossa sociedade pessoas de um certo tipo.» Não é verdade. Vender água da torneira como cura ou ensinar disparates a crianças criam conflitos inequívocos entre os interesses de quem o faz e os interesses de quem é enganado. Quanto à treta da exclusão, é outro espantalho. O que está em causa é apenas a sensatez de pôr o Estado a certificar crenças como as da homeopatia ou do criacionismo.

O raciocínio do Desidério não serve para pensar em problemas morais e políticos. Não parte das premissas certas, ataca espantalhos, tem inferências inválidas e contradiz-se, ora chamando ingénuo a quem não dá valor à filosofia do Desidério, ora dizendo que é «é completamente irrelevante o que nós achamos que [os outros] deviam preferir». Mas a pergunta é boa. «Como pensar correctamente sobre conflitos morais e políticos?» Como este post já vai longo e ando atrasado com outras tretas, agora tenho de ficar por aqui. Mas na segunda parte, daqui a uns posts, tentarei responder a esta pergunta.

1- A incompreensão profunda das diferenças cruciais. 2- Desidério Murcho, Saber pensar sobre problemas morais e políticos.

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Censo Internacional de Ateus

Diário Ateísta - Fri, 12/07/2012 - 10:05

Atenção, tropa! Está havendo uma iniciativa da Atheist Aliance International para contar quantos ateus, agnósticos, humanistas, livre pensadores e não-religiosos existem pelo mundo.

Atheist Census

O interessante é que os ateus do Brasil caíram de cabeça e estão liderando o número de ateus que registraram o voto. Tudo culpa do Paulopes! Não aparecia nem entre os 10 quando ele postou o artigo comentando o censo e agora o Brasil é o primeirão.

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Oscar Niemeyer II

Diário Ateísta - Thu, 12/06/2012 - 05:52

Outro “local de fé”, o Casino do Funchal, também idealizado pelo “arquitecto das curvas”. Ao estilo da Catedral de Brasília, embora sem a sua exuberância.

CasinoFunchal

 


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Meh… Eu não assisto TV mesmo…

Diário Ateísta - Wed, 12/05/2012 - 09:59

Saiu uma notícia no Paulopes que vai deixar as donas de casa bem tristes. A Globo tá arranjando uns esquemas aí pra dar mais destaque à Marcha para Jesus no ano que vem em troca de apoio dos pastores na realização de um evento fracassado que ela tá tentando fazer chamado Festival de Promessas.

Pra você ter uma idéia de como é fracassada essa idéia, o primeiro Festival de Promessas feito no ano passado juntou só 20.000 pessoas, sendo que a estimativa era de 200.000.A Prefeitura do Rio teria gasto quase três milhões de reais pra acertar a infraestrutura do local!

Eu não sei se a Globo tá fazendo isso pra apirraçar a Record (que é algo que eu aprovo), ou se ela tá querendo mesmo ter pessoas que gostem de música gospel no perfil de assistintes (É assistintes ou espectadores? Foda-se, se alguém perguntar é um neologismo.) da emissora.

Acho que a Som Livre também tá nessa. Crente não tem gosto próprio e compra o que o pastor manda, o que faz com que a venda de música gospel, apesar do som horrível, seja rentável. Sério, esse pastor deve ser um sádico ou algo assim.

Mas voltando ao assunto, a Globo quer ganhar mais dinheiro em cima dos crentes e por isso você vai ter que assistir mais Marcha para Jesus no Jornal Naconal. Quer dizer, se você quiser assistir TV, né? Porque eu não assisto já faz uns anos.

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Que vontade de comprar Nike agora…

Diário Ateísta - Wed, 12/05/2012 - 09:44

A Nike fez um comercial que muito vos interessa. Vou deixar com vocês o que foi publicado no Paulopes (sério, o que você tá fazendo aqui se as notícias praticamente são todas de lá? :P )

A Nike acaba de colocar no Youtube anúncio afirmando que “faz tempo que a gente fala que Deus é brasileiro”, mas “grandeza não vem de cima”.

O vídeo mostra Neymar e Anderson Silva (foto), entre outros, para dizer que “a grandeza vem do nosso esforço”, e não de “uma força mágica ao nosso redor”.

Cara, que vontade de gastar quinhentos reais pra comprar tênis que me deu agora! Ui que loucura!

Eu acho que eles estão apelando para o público alvo certo. Quem mais precisa de tênis senão os ateus que vivem fugindo de apanhar dos religiosos? :P

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Aumenta o interesse pelo ateísmo no Brasil

Diário Ateísta - Tue, 12/04/2012 - 09:59

De acordo com o Google Trends, as pessoas estão cada vez mais procurando “ateu” no Google.

O gráfico mostra um crescimento bem sólido pela busca. Sinal de que a gente tá bem na fita, mano!

Leia mais sobre essa notícia no Paulopes.

A propósito, acho que eu vou quebrar o galho e ajudar com algumas das pesquisas feitas no Google:

Uma das maiores buscas envolvendo a palavra ateu é pra saber o feminino de ateu. Já deixo aqui que o feminino de ateu é ateia (rima com colmeia, centopeia… maldita reforma ortográfica que sumiu com o acento!).

O antônimo de ateu é teísta, mas acho a palavra muito cafona. Eu falo que o contrário de ateu é crente, mas pelo jeito eu vou ter que achar um termo melhor porque todo mundo acha que eu falo de evangélico. Não-ateu faz com que o contrário de ateu soe mais negativo… Taí! Gostei!

Sobre as frases de ateus… bem… eu estou fazendo um trabalhinho por fora de tentar juntar frases legítimas, com fontes e essa cacetada toda. Dà um trabalho do caramba e o sistema do WordPress não dá um lugar bacana pra colocar essas frases. Enfim, aguentem firme que cedo ou tarde eu compilo as melhores frases de ateus do Brasil.

Sobre ser ateu, é que nem ser não-ateu, só que sem a ladaínha religiosa. O imposto vem o mesmo tanto, a cerveja desce redonda do mesmo jeito, os lanches do Burger King tem o mesmo sabor… Fazer sexo pode ser um pouquinho melhor mas nada muito significativo… O que muda mesmo é que você precisa saber direção defensiva, pra fugir da Opus Dei e dos Cientologistas, e quando alguém que você gosta acaba morrendo você fica triste e chora ao invés de comemorar que ela vai para o céu.

Sobre agnóstico, é a mesma coisa que ser ateu, só que sem dizer que é ateu. Cria aquela dúvida, sabe? “Será que ele é?” Ajudava a apanhar menos antigamente mas hoje o ateísmo é mais popular e não tem mais tantos “vias de fato” acontecendo.

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13 Coisas a se evitar para melhorar o Ateísmo

Diário Ateísta - Mon, 12/03/2012 - 07:43

Este gato é melhor que os outros gatos

Algo bastante interessante que surgiu há algum tempo atrás nos cafundós da Internet americana que pode virar de cabeça pra baixo a maneira como os ateus conversam com as outras pessoas. Coisa pra mudar a maneira como os religiosos nos enxergam e pra melhor!

O segredo está em sumir ou modificar os clichés, os chavões, os jargões e as expressões que os ateus usam o tempo todo. E a gente sabe bem que todo ateu fala do mesmo jeito porque todo ateu acessa os mesmos sites — quem aqui não acessou o Ateus.net alguma vez na vida?

Mas vamos por parte. A história é a seguinte. Christian Phiatt escreveu uma série de artigos chamadas “Clichés Cristãos a se Evitar“. Esses artigos bombaram na Internet, tanto entre os cristãos quanto entre os ateus. Daí, Vic Wang teve a idéia de escrever a série “Clichés Ateístas a se Evitar“, que também fez sucesso. Então eu tive a idéia de chupinhar a idéia dos outros e fazer essa lista em português, levando em conta a nossa cultura.

Então vamos lá.

1. Não diga “Eu não acredito em Deus”

Aparentemente não tem nada de errado com essa expressão. Ela resume bem o fato de que ateus não acreditam em Deus e não teria forma melhor de explicar o que é o ateísmo… se as pessoas entendessem essas palavras do jeito que entendemos.

O negócio é o seguinte: as pessoas não andam com dicionários na mão e tendem a levar tudo na ambiguidade. Vide as discussões sobre a “teoria” da evolução quando trocam o termo cientifico pelo vulgar. As pessoas ficam com certos significados na cabeça que tendem a afetar a percepção daquilo que a gente tá tentando dizer.

A palavra “acreditar” não é só usada no sentido de acreditar na existência de alguma coisa, mas muitas vezes é usada no sentido de “concordar”, “dar suporte”. Uma pessoa pode dizer que “não acredita na pena de morte” e ela não estará dizendo que a pena de morte não exista por aí, mas sim que não concorda com ela.

Isso é importante na nossa frase. Já repararam como várias pessoas ficam irritadas quando alguém diz que não acredita em Deus? Já repararam que algumas tentam retrucar com algo como “você não acredita no amor?” ou algo parecido? Ou lembra quando algum crente diz que “no fundo os ateus sabem que Deus existe mas escolheram rejeitá-lo”? Então.

O que você deve dizer é: “Eu não acho que Deus existe”. Esse termo é muito melhor que o antigo porque:

  1. Diz exatamente a mesma coisa, com mais ou menos o mesmo tamanho de palavras. Ou seja, é tão eficiente quanto a frase anterior.
  2. Faz a gente parecer menos arrogante, o que melhora a nossa imagem e facilita “levar a pessoa para o mau caminho”.
  3. A frase anterior dava a entender subtamente que acreditar em Deus é a posição normal, fazendo os ateus parecerem mais como o grupo “do contra”. Essa daí não. Ela só diz que você não acredita que Deus existe.
  4. Ela bota uma ênfase maior na dúvida, e a dúvida é a maior semente do ateísmo que se pode colocar numa pessoa religiosa. É com a dúvida que você destrói a fé. Melhor que mandar um religioso ir pastar é fazê-lo mandar o padre ir pastar daqui a 5 anos, não acha?

Você pode achar que dizer que “acha” é um detrimento, mas a frase é mais para dizer o que você pensa, não pra sair já chutando a crença do ouvinte. Se ele quiser saber mais o porquê de você achar que deus não existe, aí é que você destrói a fé do coitado. E se o cara não quiser discutir por algum motivo, pelo menos ele não vai te achar um cara chato.

2. Não diga “Fulano perdeu a fé”

Vou resumir bem esta daqui. Ateísmo não deve parecer algo negativo. Vocês viram ali em cima na anterior? Não devemos dar a entender que “ter fé” é o padrão. Muito menos devemos dar a entender que pra ser ateu você precisa perder alguma coisa.

Pensa na gripe. Quando você tá com gripe e depois sara, você diz que “perdeu a gripe”? Coisa ruim não se perde!

É só falar que “Fulano virou ateu” que tá bom. Tentar florear com um “Oh! Perdeu a fé!” só vai fazer a gente parecer mais mal do que já é.

3. Não diga “Fulano realmente acredita em…”

Vamos começar com um exemplo pra poder entender essa bagaça. “Os católicos realmente acreditam que a hóstia e o vinho viram a carne e o sangue de Jesus Cristo!”

O problema é algo que muitos de vocês, que assim como eu já foram de uma determinada religião, vão notar bem fácil. Eu já fui católico e eu nunca acreditei que a hóstia e o vinho realmente viravam a carne e o sangue de Cristo.

Tem gente que acredita, mas convenhamos que a maioria das pessoas normais não acreditam. A maioria dos católicos nem vão na igreja. Ao falar dos católicos que seguem a religião estritamente, você não está conseguindo conversar com o cara que só vai em batizado. Justo ele que é mais fácil de desconverter ou de explicar o que é o ateísmo.

O negócio é dizer que “Fulano alega acreditar” em alguma coisa. Há uma sutileza aí. Você dá a entender que a pessoa fala acredita em alguma coisa mas pode ter alguma dúvida no seu íntimo. O que provavelmente é verdade na maioria dos casos.

Não só fica mais empático, como também faz a alegação soar um absurdo maior ainda. Falando desse jeito, por exemplo, o cristão só alega que acredita na transubstanciação, e que não acredita realmente nisso porque é absurdo demais.

4. Não diga que Jesus nunca existiu

Vamos falar a verdade. Jesus místico é mais improvável que um time de futebol cujos jogadores são 11 ursos com macacos nas costas. Mas isso não quer dizer que não existiu uma pessoa que pode ter dado origem ao mito, certo?

E a Bíblia, ironicamente, não só dá a entender que ele provavelmente existiu como uma pessoa de verdade, como também mostra que ele provavelmente era um charlatão. Sério!

  • A Bíblia diz que o profeta iria se chamar Emanuel. Se Jesus nunca existiu, por que que já não deram esse nome pra ele e engambelaram os judeus também? Porque provavelmente ele se chamava Jesus mesmo, ou algo parecido.
  • A Bíblia fala que ele não podia fazer milagres na cidade natal dele, exceto cura pela fé, que é aquele golpe de encostar em um suposto cego e falar que ele tá enxergando agora. Mas pera lá… Por que que ele não podia fazer milagres em sua cidade natal? Será que o povo de Belém sabia de alguma coisa que a gente deveria saber? Hein? ;)
  • Mateus e Lucas criaram duas estórias estapafúrdias para justificar o fato dele ser um nazareno e ter nascido em Belém, visto que a profecia dizia que o messias nasceria em Belém. Lucas fala de um censo que nunca aconteceu. Mateus fala de uma matança de bebês que nunca aconteceu. Não era mais fácil dizer que ele era de Belém logo?

A Bíblia dá corda pra Jesus se enforcar. Muitos detalhes pra justificar divergências que poderiam simplesmente não ter acontecido se ele era uma invenção completa.

Enfim, dizer que Jesus nunca existiu te impede de usar a própria Bíblia pra provar que Jesus nunca existiu… digo, que Jesus não era Deus.

5. Não cite Lucas 19:27 como prova de que Jesus era violento

Lucas 19:27 diz o seguinte:

E quanto àqueles meus inimigos que não quiseram que eu reinasse sobre eles, trazei-os aqui, e matai-os diante de mim.

Tipo, Jesus disse isso, mas ele tava contando uma parábola. Uma parábola bem WTF, mas ele não mandou mesmo matar ninguém. Vai lá ler o capítulo inteiro e você vai ver que, a partir do versículo 11, é uma estória.

Você quer pagar mico? Não quer pagar mico, né? Então presta atenção onde consegue as frases.

6. Não fique zoando o Gênesis

Gênesis é o livro mais conhecido da Bíblia, o mais fácil de zoar e o mais ignorado dos religiosos. Não adianta tentar mostrar que a Bíblia não é um livro confiável fazendo troça do Gênesis porque os próprios religiosos, na maioria das vezes, dizem que é só uma alegoria e que não aconteceu de verdade.

O que você precisa fazer é pegar trechos da Bíblia que as pessoas têm mais dificuldade de dizer que são alegorias, como aquela parte onde Jesus destrói uma figueira por não dar figos fora de época, animais nascendo listrados porque pintaram as cercas do curral, Jesus dizendo que o fim do mundo vai acontecer antes dos 12 apóstolos morrerem…

Aliás, olha só que legal: Sabia que, de acordo com a Bíblia, Jesus entrou em Jerusalém montado em dois burros ao mesmo tempo?

7. Se for pra zoar a Arca de Noé, pelo menos saiba os números

Tá, é difícil não zoar a Arca de Noé. Mas olha só que legal: não só Noé teria colocado um par de cada animal na arca, como ele teria colocado sete pares de todos os animais considerados puros, que são a maioria dos animais. Só os animais impuros é que tinham um par.

Ou seja, só piorou o bagulho.

8. Os livros da Bíblia não foram decididos por votação popular

Todo mundo pensa que a Bíblia de hoje foi decidida no Concílio de Nicéia no século IV. Ledo engano. Os livros da Bíblia mudavam o tempo todo, pelo menos até o Concílio de Trento no século XVI, que inventou essa bagaça de “livros canônicos”. E não foi votação não, foi decreto da Santa Sé.

9. A Bíblia não sofreu traduções demais para se saber o que foi originalmente dito

Muitos falam que de tantas traduções se perderam as mensagens originais, mas o esquema nunca foi o de telefone sem-fio. Geralmente as traduções vinham de uma versão em hebreu do Velho Testamento e de uma versão em grego do Novo Testamento.

Mas isso é bom, porque prova que os apóstolos não podiam ter escrito os evangelhos. Eles falavam aramaico e eram analfabetos. Só Paulo que não era analfabeto, mas ele também não era apóstolo.

10. Esqueça o filme Zeitgeist

O filme é tão chinfrin que praticamente todos os sites de ceticismo já refutaram essa droga de filme. Citou Zeitgeist, pagou mico.

11. Não diga que religião “não faz sentido”

Esse problema é bem parecido com o primeiro. Religião é cheio de umas lorotas sem pé nem cabeça que botam a lógica pra correr. O problema é que se você dizer que religião ou uma alegação religiosa “não faz sentido”, vai soar para os outros como “você não conseguiu entender”.

Sabe quando uma pessoa vê um problema de matemática, puxa os cabelos e grita “Isso não faz sentido!”? Então, é isso que os crentes estão entendendo.

O certo é você especificar melhor qual que é o problema das alegações. O conceito da Trindade, por exemplo, não é que não faz sentido, é que ele é incoerente. Um Deus que ama todo mundo mas manda pessoas pro Inferno, não é que não faz sentido, é que isso é um paradoxo e é antiético.

Ou seja, o problema não é com a gente, não é a gente que não consegue entender. O problema é a religião, que tem essas falhas grandes que nos impede de acreditar nelas.

Decore estas palavras: ilógico, contraditório, ininteligível, falho…

12. Nunca diga que não se pode escolher o que acreditar da Bíblia

Não só os crentes simplesmente fazem isso, como eles precisam fazê-lo. Muitas passagens contradizem muitas outras. Dá até pra apoiar o aborto e a homossexualidade usando a Bíblia.

Além do mais, as pessoas que acreditam na Bíblia e não escolhem a dedo as passagens em que acreditar são os fundamentalistas e a última coisa que eu quero é dar a entender que eles são mais coerentes do que um crente normal.

13. Não reclame quando os cristãos derem a entender que um serial killer pode ir para o paraíso se no leito de morte ele virar cristão

Primeiro, a maioria dos cristãos gostam de pensar que uma pessoa pode se redimir de algo ruim que fizeram, e isso não é exatamente um pensamento ruim a ser cultivado. Se a gente colocar isso de uma maneira secular, uma pessoa que cometeu um erro pode fazer por merecer um perdão.

Dito isso, se for para reclamar, tente reclamar de coisas como a doutrina da salvação irrevogável. Imagina o contrário do exemplo acima: um cristão de repente vira um serial killer e sai por aí matando todo tipo de gente até a morte, sem se arrepender. Pela doutrina cristã, essa pessoa vai pro céu porque já foi cristã e, portanto, salva. Eles até usam isso para justificar coisas como o batismo de crianças. Você pode até fazer perguntas do tipo “Como Hitler era católico, por essa doutrina ele vai para o céu mas pessoas como o Einstein e o Ghandi não vão?” É uma doutrina perversa se parar para pensar, não é?

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Treta da semana (passada): desinformação.

Diário Ateísta - Sun, 12/02/2012 - 16:20
Segundo o Pinto Balsemão, é necessário limitar a “desinformação” na Internet, onde há informações relevantes mas onde também, «misturado com isto tudo, há rumores que nunca são confirmados». Além disso, «As redes sociais vieram agravar este fenómeno”» (1). Achei curioso. O Pinto Balsemão é o presidente da Impresa, detentora de revistas como a Caras (2) e a Activa (3), além da SIC, onde a Maya deita cartas, o que sugere muito pouca exigência e rigor na informação. Defende também que «sejam colocados limites a essa desinformação» e pergunta «Até que ponto devemos ser tolerantes com a intolerância?»

A primeira parte é a hipocrisia costumeira de uma indústria habituada aos monopólios. Era fácil fazer dinheiro com publicações da treta vendendo opiniões escritas à pressa com fotografias de stock para dar cor. Hoje faz-se isso nos blogs, que são de borla e aos montes. O mercado dos posts em revista e televisão está a contrair, prejudicando a empresa do Pinto Balsemão. Mesmo no conteúdo de qualidade, o gratuito tira cada vez mais negócio ao pago. Se bem que seja necessário pagar a um profissional para produzir regularmente, e por encomenda, material de qualidade, há muitos amadores com capacidade e vontade para criar, mesmo que esporadicamente, conteúdos de valor sem cobrar nada por isso. Com milhões desses a um click de distância é difícil competir. Veja-se, por exemplo, o que a Wikipedia tem feito ao negócio das enciclopédias. Quando Pinto Balsemão diz “limitar a desinformação” o que quer dizer é restringir a publicação amadora para limitar a concorrência que esta lhe faz.

A conversa da intolerância tem, basicamente, o mesmo objectivo. «Até que ponto devemos ser tolerantes com a intolerância?» Até ao ponto em que se torne intolerável. Aquém disso, tolera-se. Se alguém for intolerante aos meus posts, tolero perfeitamente que não os leia. Se quiser criticar, escarnecer, troçar ou insultar, que fique à vontade. Tanto me faz. A intolerância só é intolerável se nos impõe algo que não podemos evitar. A censura, por exemplo, é uma forma intolerável de intolerância. Logo por azar, é essa que o Pinto Balsemão defende. «Os cidadãos “que defendem a liberdade de expressão” poderão ser levados a exigir que “sejam colocados limites a essa desinformação”». Queixa-se de que «há dificuldade em saber quem é quem» e defende que «os meios ditos tradicionais mantenham as suas funções de mensageiro de filtrador, de veiculador de opiniões e de ‘aguilhão’ da opinião pública». Ou seja, quer limitar a liberdade de expressão e o direito à manifestação anónima só para combater a tal “desinformação”. Quer impedir que se diga por aí o que ele não quer que se diga. Essa intolerância é que é intolerável.

É verdade que a tecnologia moderna ampliou muito a nossa liberdade de expressão e que essa liberdade exige alguma sensatez para usar de forma proveitosa. Daí se terem agravado problemas antigos como o rumor e a difamação, e terem surgido problemas novos como o dos melgas que enchem caixas de comentários com divagações ininteligíveis ou ladainhas repetitivas. Mas a mesma tecnologia que agrava esses problemas dá a cada um de nós as ferramentas para os resolver. É fácil testar o fundamento dos rumores, desmentir difamações e ignorar ou filtrar o ruído. Em vez de estarmos dependentes do tal “mensageiro filtrador e veiculador de opiniões” do Pinto Balsemão, com um pouco de conhecimento e espírito crítico cada um safa-se bem por si sem precisar que censurem o que quer que seja.

Mas este, é claro, acaba por ser o problema fundamental. A carreira de pessoas como o Pinto Balsemão, quer na política quer à frente de empresas como a que ele lidera agora, seria muito mais difícil com um público informado, céptico e proficiente a topar-lhes a treta. O melhor é colocar já “limites à desinformação” não vá o pessoal aprender a distinguir entre o que é verdade e o que se vende como o sendo.

1- I Online, Pinto Balsemão admite que será necessário "limitar desinformação" da Internet
2- Por exemplo, Irmã de Penélope Cruz pode estar grávida Também pode não estar. Não querem dar azo a rumores infundados.
3- Por exemplo, Kim Kardashian confessa inveja de irmã Kendall Jenner, «Kim Kardashian escreveu, no twitter, que tem inveja relativamente à meia-irmã, Kendall Jenner, que acabou de fazer capa da Vogue Austrália». Claramente, é preciso acabar com esta coisa das redes sociais e deixar as notícias a cargo de profissionais competentes que saibam escolher o que é importante sabermos.

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O Universo tem um Propósito?, de Neil deGrasse Tyson

Diário Ateísta - Fri, 11/30/2012 - 23:22
o-universo-tem-um-propositoO Universo tem um propósito? Não tenho certeza. Mas qualquer um que expresse uma resposta mais definitiva à questão, está afirmamndo o acesso a um conhecimento não baseado em fundamentos empíricos. Esta maneira de pensa notavelmente persistente, comum na maioria das religiões e alguns ramos da filosofia

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Convite para um Programa de Índio

Diário Ateísta - Fri, 11/30/2012 - 10:01

Crente é foda. Olha o e-mail que me mandaram anteontem:

Convidamos os amigos da “Ateus do Brasil” para lerem o artigo “Criacionismo X Evolucionismo”, do Prof. Dr. Ruy Carlos de Camargo Vieira, Presidente da Sociedade Criacionista Brasileira no site www.letraseeartes.com.br, site do Projeto LetrasEEARtes, da Escola de Especialistas de Aeronáutica, do Comando da Aeronáutica. Propusemos uma reflexão sobre o tema e convidamos representantes de ambas as partes da questão para manifestarem seu ponto de vista. Apenas o Dr. Ruy compreendeu a proposta e enviou sua contribuição. Ficamos no aguardo de que alguém ofereça uma contrapartida, a fim de que nossos leitores possam, por meio do pensamento crítico, tirarem suas conclusões sobre uma e outra vertente de pensamento.

Agradecemos pela atenção.

Marcelo Menezes

Eu não sei se o Professor de Redação Marcelo Menezes é crente ou não, mas olha… é pra acabar, viu?

O “Professor Doutor” Ruy Carlos de Camargo Vieira é engenheiro mecânico e eletricista. Não adianta dizer que o cara é Doutor que isso não vai ajudar muito porque o assunto é de biologia, geologia, astrologia, etc. Ele é presidente da Sociedade criacionista Brasileira, que é uma entidade que tem o objetivo explícito de provar que a Bíblia está de acordo com a realidade quando tudo aponta para o contrário.

Os caras deixam ele participar e depois ficam tentando convidar cientistas do contra pra participar de um debate científico cujo um dos lados é um bando de tonto tentando mostrar que uma tribo nômade do deserto há 3.000 anos atrás que não sabia nem o que era germe, ou átomo, ou matemática, ou bons modos, ou tomar banho, por algum motivo teria adivinhado como o universo surgiu.

Não existe pensamento crítico no criacionismo. Criacionismo é um bocó olhando pras coisas da natureza e falando “humm… eu não sei como isso surgiu… parece complicado… então deve ter sido Deus que fez…”. Que ciência tem nisso?

E querem convidar cientistas pra debater com ele. É o mesmo que tentar convencer o Thiago Lacerda a contracenar numa peça teatral com o Zé Limbão, morador de rua da cidade de Brejo Alegre. Quem que vai sair ganhando com isso? O Thiago Lacerda que não. Se for pra foder com os cientistas, pelo menos convida pra jantar num restaurante e leva umas flores, né?

E o referido texto do “Doutor”? É basicamente isso: “Olha, o criacionismo não é científico mas o evolucionismo também não é porque eu não entendo patavinas de biologia”. Ah, me poupe! Eu não tenho tempo pra essas coisas… Eu tô ocupado tentando zerar Borderlands 2 com Gaige ainda.

Quem quiser participar, tá aí o e-mail e o site. Eu até ia dizer que os caras não parecem ser criacionistas, mas se foram bestas o suficiente pra deixar o presidente da Sociedade Criacionista escrever um texto então não deve ser lá um ambiente de qualidade.

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Nem tudo está perdido. Tem gente que entende.

Diário Ateísta - Thu, 11/29/2012 - 03:53

Taí uma notícia que me deixou feliz:

Bispo manda tirar santos de praça para não ofender outros credos

O bispo dom Bruno Pedro, de Ji-Paraná, em Rondônia, mandou que a Igreja Sagrada Família, em Cacoal, tire seis estátuas de santos da praça pública que lhe circunda, para que as pessoas de outros credos não se sintam ofendidas.

Esse bispo aí entende a diferença entre igreja e governo. Ele sabe que existem outros credos e que merecem respeito por igual. Tivessem mais bispos e padres como ele, talvez a Igreja Católica estivesse com mais fiéis.

(Cara, eu espero que ele não seja pedófilo… Sempre fico com medo de elogiar alguém da Igreja Católica por causa disso…)

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Não existe crente em avião decolando

Diário Ateísta - Mon, 11/26/2012 - 09:57

Cada notícia que me aparece…

Passageiro se recusa a parar de orar, e avião teve de pousar

Na quinta-feira à noite um avião que voava de Denver para Washington DC, nos Estados Unidos, teve de fazer pouso de emergência porque um passageiro se recusou a parar de rezar em voz alta no corredor.

De início, a tripulação e os demais passageiros temeram que pudesse ser o ritual de um provável atentado. O Boeing 757 da United Airlines foi escoltado por um jato militar.

O passageiro da oração foi detido no aeroporto e levado para depor em uma delegacia. Provavelmente ele sofre de problemas psiquiátricos. Não foi divulgada a sua religião.

Enquanto os crentes reclamam que não existe ateu em avião caíndo — uma discussão que é bem besta, visto que não existe avião movido à Ave-Maria — o povo não tá gostando de gente rezando durante as decolagens não. Já perceberam que só religiosos é que explodem aviões.

Se eu entro num avião e antes de decolar neguinho começa a rezar alto, eu já vou correndo pra porta de emergência. Eu que não quero fazer parte de atentado terrorista! Antes vivo do que mal acompanhado.

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2º Encontro Nacional de Ateus vai ser em Fevereiro de 2013

Diário Ateísta - Mon, 11/26/2012 - 09:20

A Sociedade Racionalista tá preparando o segundo encontro nacional de ateus, coincidentemente chamado de II Encontro Nacional de Ateus.

Como da primeira vez fizeram tudo em cima da hora, desta vez estão ajeitando tudo com pelo menos três meses de antecedência, pra ficar tudo ajeitado no dia 17 de fevereiro de 2013. E já há pelo menos umas 26 cidades confirmadas.

Quem é que vai querer perder uma oportunidade de chapar o coco com o povo mais legal da face da Terra? Ouvi dizer que vai ter ateus também… :P

Ah! Os não-ateus não estão convidados. Favor aguardar a Marcha para Jesus ou algo do gênero, ou então ir pra igreja. Essa festa é só pros bons.

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A incompreensão profunda das diferenças cruciais.

Diário Ateísta - Sat, 11/24/2012 - 16:52
O David Marçal escreveu ser «uma péssima notícia» a de que o governo vai certificar cursos e profissionais das medicinas alternativas (1) porque isto «Induz o público em erro, levando as pessoas a pensarem que estas terapias têm uma validade equivalente à medicina convencional, o que não é verdade.»(2) O Desidério Murcho opôs-se ao post do David «por enfermar de uma incompreensão profunda de uma diferença crucial», alegadamente «uma enorme, uma gigantesca diferença entre argumentar e mostrar que não funciona, e impedir as pessoas de a praticar, ensinar, divulgar, etc.»(3) Parece-me que a incompreensão está mais do lado do Desidério.

No texto do David não encontrei nada que sugerisse proibição, repressão ou censura destas ideias. Encontrei apenas a opinião de que o Estado não deve certificar coisas como homeopatia, e nisso estou inteiramente de acordo. Penso que estamos todos de acordo que quem criar um curso de Ecologia de Gambozinos não deve ser preso, silenciado ou proibido de ensinar tal coisa. Mas o que o David defende, e eu concordo, é que não seria correcto o Ministério da Educação certificar cursos ou profissionais de Ecologia de Gambozinos porque não há qualquer critério objectivo para identificar autoridades nessa matéria. Isto não é «Impor aos outros as nossas ideias»(3). É simplesmente o problema de não existirem gambozinos e, por isso, não haver maneira de certificar gambozinices. O Desidério está a confundir a oposição a que o Estado certifique disparates com a repressão de ideias.

Mas não é só essa confusão. Escreve também o Desidério que «A única coisa relevante é haver pessoas que querem consumir homeopatia. Essas pessoas têm o direito de errar e é por isso que é irrelevante, para efeitos legislativos, saber se a homeopatia é “científica” ou não»(3). Depende dos efeitos legislativos que estamos a considerar. A falta de fundamento científico (sem aspas) para a homeopatia não justifica que se proíba as pessoas de tomar gotas de água ou comprimidos de sacarose. Mas justifica que se proíba a venda de preparados homeopáticos como se fossem medicamentos, porque se não tratam nada isso será publicidade enganosa. Ou seja, o Desidério está a confundir o direito de fazer anéis de latão com a aldrabice de dizer aos compradores que são de ouro.

O Desidério engana-se ao julgar que «A homeopatia não prejudica seja quem for, involuntariamente.» Atrasos no tratamento de problemas graves, como o cancro, sobrecarregam o sistema de saúde. O tratamento ineficaz de doenças infecciosas põe em risco a saúde de terceiros, tal como a má prevenção, por exemplo com oscillococcinum em vez de vacinas. Alem disso, muitos produtos homeopáticos são dados a crianças por decisão dos pais. Mas neste ponto o Desidério está apenas mal informado. A confusão é esta: «É irrelevante se a homeopatia realmente ajuda as pessoas ou as prejudica, dado que as pessoas a escolhem em liberdade.» Aqui o Desidério confunde duas noções de liberdade crucialmente diferentes.

Uma é a liberdade como mera ausência de impedimentos externos. Se o Desidério andar à noite numa rua escura pode cair num buraco destapado. Neste sentido, podemos dizer que é livre de cair porque nada impede que o faça. Mas esta liberdade não é necessariamente boa. O outro sentido, o bom e crucialmente diferente, é aquele em que o Desidério só cai no buraco se o deseja consciente das consequências dessa escolha. Se cai por não saber que tiraram a tampa é queda livre mas não é vontade livre. Nas medicinas alternativas passa-se o mesmo. Quem toma um preparado homeopático porque o comprou na farmácia e está convencido que aquilo cura cai num buraco que teria escolhido evitar se soubesse que aquilo não serve para nada.

Finalmente, parece que o Desidério confunde um outro detalhe. «Isto porque sempre que excluímos dos nossos arranjos legislativos quem acredita nisto ou naquilo ou quem vive desta ou daquela maneira, estamos a oprimir essas mesmas pessoas, não lhes reconhecendo o direito a sentirem-se tão realizadas e aceites quanto nós mesmos.» A certificação de cursos e profissionais não tem como propósito fazer as pessoas sentir-se aceites ou realizadas. O objectivo é proteger o consumidor. Por exemplo, para que quando está doente e consulta um profissional de saúde possa confiar que este sabe diagnosticar e tratar doenças.

O que o David Marçal defende não é uma imposição de ideias. Mesmo sem a certificação oficial da homeopatia e afins as pessoas seriam livres de pensar o que quisessem. Também não é a proibição da prática de disparates; é apenas que o estado não seja cúmplice na venda enganosa de disparates inúteis como se fossem tratamentos eficazes. E não é um ataque à liberdade das pessoas. Pelo contrário, o problema que o David Marçal aponta é que a certificação estatal destas tretas retira liberdade de escolha porque induz as pessoas em erro. Ironicamente, o título do post do Desidério é «Em defesa da aldrabice.» Mais uma confusão entre dois conceitos crucialmente diferentes. Uma é a aldrabice no sentido de trapalhada. A essa todos têm direito. Mas outra, bem diferente, é a aldrabice ardilosa que serve para enganar. Essa não é um direito. É uma violação da tal liberdade que o Desidério diz defender, e é crucial distinguir cuidadosamente entre a liberdade de escolher e a liberdade de aldrabar os outros.

1- Público, Vai ser preciso tirar um curso para praticar acupunctura
2- David Marçal, Regulamentação das medicinas alternativas é uma aldrabice convencional
3- Desidério Murcho, Em defesa da aldrabice.


Adenda: os gambosinos (com s) afinal existem. Obrigado, D. Barbosa, por esta espantosa novidade. No entanto, não são o mesmo que os gambozinos (obrigado, António Parente).

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Contar feijões.

Diário Ateísta - Fri, 11/23/2012 - 16:53
O Pedro Cosme Vieira sugeriu que a educação em Portugal deixasse de ser sem custos para o utilizador e passasse a «SCUMA - Sem custos para o utilizador no momento da apropriação do bem»(1), mas paga mais tarde, em prestações, descontando-se ao ordenado de cada um o custo da sua educação. Penso que é um bom exemplo de dois problemas comuns neste tipo de argumento económico: seleccionar tendenciosamente os factores a considerar e, pior do que isso, inferir dos alegados factos juízos de valor.

Estima o Pedro que a educação custa uns 70.000€ ao Estado, 100.000€ se for de medicina, pelo que acha «interessante a canalhada brava, esquerdista, recém licenciada vir para a rua gritar que não contribuiu em nada para a dívida pública quando mamou 70000€ no Estado (mais aos país e pelos anos de chumbo).» Como provavelmente sou o que ele considera “canalhada esquerdista”, devo esclarecer este ponto. O Estado gasta uns 100 mil milhões de euros por ano, cerca de dez mil euros por pessoa. Eu pago uns quinze mil em impostos directos, mais uns três ou quatro mil em IVA e nem sei quanto em impostos que o Estado cobra à produção e que se reflecte no preço de venda. Contas por alto, devo pagar ao Estado o dobro do que o Estado gasta em média por pessoa. É provável que, ao longo da minha carreira, acabe por dar mais do que recebo. O que é justo, porque o posso fazer com menos sacrifício do que muitos outros, mas pago do meu trabalho o que o Estado me dá e ainda pago por quem não pode dar tanto.

Mas o argumento central do Pedro é que Quem tem mais escolaridade [tem] um salário mensal mais elevado [e] a probabilidade de um licenciado estar desempregado é 30% menor que a média [...] Desta forma, cria-se a injustiça social de as pessoas que não usufruem da escola terem que pagar o ensino de quem usufrui.» Esta análise falha em dois pontos que deviam ser óbvios até para um economista. Primeiro, se o salário é 30% maior, os impostos que paga são maiores numa percentagem ainda mais elevada, pois quem ganha mais paga uma fracção maior do que ganha. Em segundo lugar, a educação gratuita, mesmo que só alguns tirem um curso, tem benefícios para todos. Se o curso de medicina custasse 100,000€ ao médico, mesmo que descontados mais tarde, haveria menos pessoas a seguir medicina e quem seguisse cobraria mais pelo seu trabalho, por um lado por haver menos oferta e, por outro, para compensar os custos. Isto ia aos bolsos de todos. O que o Estado poupasse nas faculdades de medicina pagava depois nos hospitais públicos e o que o cidadão poupasse nos impostos que não pagava para os estudantes de medicina pagava depois nas consultas ou, pior ainda, ficava sem médico a quem recorrer.

Isto não é só para medicina. Saber ler e escrever, por exemplo, não parece grande coisa mas quem quiser investir numa empresa precisa de empregados capazes de fazer contas, gerir stocks, preencher papelada e afins. Se cada pessoa tivesse de pagar 50.000€ do seu ordenado para ter educação o custo desse trabalho seria muito maior. Isso não só prejudicava todos os clientes da empresa como também prejudicava os donos. No fundo, quem beneficia mais, individualmente, da educação gratuita são os grande accionistas. Pode ser que um empregado da Sonae ganhe mais umas centenas de euros do que ganharia sem a educação que tem. Mas o Belmiro de Azevedo ganha muitos milhões por não ter de pagar a educação dos seus empregados e por poder comprar, mais barato, o trabalho de tantas pessoas qualificadas.

A ideia de que quem tira um curso é o único beneficiário desse investimento é um disparate. A educação beneficia muita gente, e não é só em euros. Quanto maior o nível de educação dos meus vizinhos, nem que sejam licenciados em literatura medieval ou escrita cuneiforme, é mais provável que vacinem os seus filhos, que tomem os antibióticos de forma responsável, que não sejam criminosos e que sejam melhores vizinhos do que se não tiverem ido à escola. Mas assumir que o licenciado é o único beneficiário da licenciatura nem é o maior problema do argumento do Pedro. O pior é inferir daqui que, por isso, cada um deve pagar a sua educação. É uma inferência falaciosa, que parece fazer sentido quando não faz. O propósito do Estado não é cada um comprar o que pode. Não é preciso Estado para cada diabético pagar a sua insulina, cada habitante pagar o seu pedaço de estrada e cada um pagar a investigação do crime de que foi vítima. O papel fundamental do Estado é garantir a todos certas coisas importantes – como saúde, segurança e educação – distribuindo equitativamente o esforço de as pagar. Quando os economistas conseguirem garantir que todos nascem em famílias igualmente ricas e generosas podemos deixar estas coisas por conta do mercado. Se todos puderem participar nas transacções com igual poder de negociação, o princípio do utilizador pagador pode ser justo. Mas, até lá, as coisas mais importantes não podem ficar só para quem pode pagar, e a educação é das coisas mais importantes. Para todos.

1- Económico-Financeiro, Cortar na despesa - a educação.

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Censos 2011: um milhão de portugueses não católicos

Diário Ateísta - Wed, 11/21/2012 - 07:04
Ao responder aos censos de 2011 (os resultados foram ontem divulgados) quase um milhão de portugueses (maiores de 12 anos) se declararam não católicos: 615 mil assumiram-se «sem religião» (eram 343 mil em 2001) e 348 mil declararam seguir outras religiões que não a católica (eram 216 mil em 2001). Existem ainda 745 mil que se negaram a responder (787 mil em 2001). O número de católicos declarados como tal ao censo mudou pouco: diminuiu de 7,35 milhões para 7,28 milhões.

Em percentagem, os «sem religião» subiram de 3,9% para 6,8%, os de outras religiões de 2,5% para 3,9%, enquanto os católicos desceram de 85% para 81% (os que se recusam a responder pouco variaram, de 9% para 8,3%). Duas tendências crescentes: a dos que não têm religião e a dos que seguem religiões não católicas (entre os quais os grupos mais importantes são os 57 mil «ortodoxos», os 76 mil «protestantes» e os 163 mil que identificaram a sua religião como «outra cristã»). Pode afirmar-se seguramente que existe um aumento da secularização e da diversidade religiosa.
O gráfico mostra apenas a evolução dos três grupos minoritários (a coluna católica seria muito maior). Não será abusivo extrapolar que, a manterem-se as tendências actuais, o número de portugueses sem religião (declarados ao censo) ultrapassará um milhão no censo de 2021, ano em que os portugueses de outras religiões poderão ser meio milhão.

(Poupem-me ao «Portugal esmagadoramente católico»...)

[Diário Ateísta/Esquerda Republicana]

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  1. Censos 2011
  2. O Estado não laico da RTP
  3. Serviço público religioso

Treta da semana: Biomusicologia®.

Diário Ateísta - Sun, 11/18/2012 - 16:51
O “Instituto de Ciências do Som e Bioterapias” oferece consultas de Biomusicologia®. Atribuindo a Leonardo Coimbra a afirmação de que «a evolução biológica é a construção progressiva que a direção e a herança tenham feito num tempo determinado pelo conjunto das noções geológicas, físicas e químicas», explica a página no instituto que a Biomusicologia® Terapeutica é «Uma Terapia harmoniosa que permite o funcionamento total de um organismo vivo.»(1) Não percebi o que uma coisa tem que ver com a outra. Nem sequer percebi ao certo o que isto quer dizer. E se bem que o funcionamento total do organismo me pareça uma coisa boa, o vídeo deixou-me na dúvida.



Como qualquer pessoa que tem crianças pequenas a acordar todas as noites, percebo o apelo de fazer barulho enquanto alguém tenta dormir numa cama cheia de cordas e tambores. É uma forma de restabelecer um pouco de justiça ao universo, seguindo o princípio milenar do “lixa os outros como te lixaram a ti”. A dúvida é se é o paciente quem tenta dormir enquanto o terapeuta faz barulhos irritantes. Com o que tenho dormido ultimamente, temo que uma sessão destas acabasse com o terapeuta a engolir os instrumentos da terapia.

Além disso, há aspectos destas ciências do som e quejandos que me deixam preocupado. Por exemplo, que «Somos constituídos por um corpo físico, feito de matéria e por uma aura, mais súbtil, ou seja anti-matéria, que é o que reveste os nossos campos de energia.» Espero que se tenham enganado nisto. Não sei o que é um campo de energia, mas se está revestido de anti-matéria quero-o bem longe de mim. Com E=mc2 não se brinca.

No que toca ao espiritual e transcendente, a Biomusicologia® caracteriza-se pela «experiência de ser agarrado, ou levado por uma outra dimensão da realidade, que está para além da materialidade do ambiente que nos rodeia, e mais relacionada com a ambiente último que é infinito no seu desígnio e inesgotável no seu mistério.»

Peço desculpa. A citação anterior é do Miguel Panão, acerca da religião católica (2). A Biomusicologia® é «apreender a transpessoalidade implicada no sentido da existência. É reconhecer o poder de transformar a consciência que adoeceu ao longo do tempo através do despertar consciênte da imortalidade da alma.»(3) Por alguma razão estranha, às vezes confundo estas coisas.

A Biomusicologia® é tão especial, tal com uma data de outras crendices, porque não se sujeita a testes empíricos e porque ninguém pode provar que é falsa. Por exemplo, «A ciência oculta ensina na sua 3ª Lei A LEI DA VIBRAÇÃO, que a vida é movimento e o movimento é a essência da própria matéria. Tudo é incessante vibração. A substância são modos de movimento, distinguindo-se por diferentes velocidades de vibração.»(4) Esta lei da vibração não é como as teorias da física ou da biologia. Não é para se por à prova ou confrontar com observações. Estas “leis” brotam da contemplação de gurus iluminados cujos umbigos são verdadeiras janelas para os maiores mistérios do universo. Basta um olhar de relance e surgem umas dúzias de terapias, bruxarias e seitas. Para os iniciados, afirmações que ninguém pode verificar mas que ninguém consegue refutar são exemplo de conhecimento, sabedoria e até de Verdade, maiúscula e infalível. Eu chamo-lhes tretas a todas, mas deve ser mania minha.

1- Instituto de Ciências do Som e Bioterapias, Biomusicologia® Terapeutica
2- Miguel Panão, A religião é boa
3- Instituto de Ciências do Som e Bioterapias, Biomusicologia® Regressiva
4- Instituto de Ciências do Som e Bioterapias, Biomusicologia®

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