O que é o Humanismo?

Texto de Fred Edwords

O tipo de resposta que se recebe à questão “O que é o humanismo?” depende do tipo de humanista a que se pergunta!

A palavra “humanismo” tem diferentes significados. Como, com frequência, autores e oradores não clarificam qual o significado a que se referem, quem tenta explicar o que é o humanismo pode facilmente tornar-se numa fonte de confusão. Felizmente, cada significado da palavra constitui um tipo diferente de humanismo e os diferentes tipos são facilmente separados e definidos pelo uso de um adjectivo apropriado. Torna-se, então, relativamente fácil resumir desta forma as variedades de humanismo.

Humanismo Literário
É a devoção às humanidades ou cultura literária.
Humanismo Renascentista
É o espírito de procura de conhecimento que se desenvolveu no final da Idade Média com o renascer dos textos clássicos e uma confiança renovada na capacidade do ser humano em determinar por si próprio a verdade e a falsidade.
Humanismo Cultural Ocidental
É um nome apropriado para a tradição racional e empírica que se originou em grande parte na Grécia e Roma antigas, evoluiu durante a história europeia e constitui, no presente, um pilar básico da postura Ocidental perante a ciência, a teoria política, a ética e a lei.
Humanismo Filosófico
Aplica-se a qualquer perspectiva ou atitude perante a vida centrada nos interesses e necessidades humanas. As subcategorias deste tipo incluem o Humanismo Cristão e o Humanismo Moderno.
Humanismo Cristão
É definido pelo Terceiro Novo Dicionário Internacional Webster como "uma filosofia que defende a auto-realização do homem dentro da estrutura dos princípios cristãos”. Esta fé mais centrada no homem é, em grande parte, um produto da Renascença e constituiu uma parcela do humanismo Renascentista.
Humanismo Moderno
Também chamado Humanismo Naturalista, Humanismo Científico, Humanismo Ético e Humanismo Democrático, é definido por um dos seus principais proponentes, Corliss Lamont, como “uma filosofia naturalista que rejeita todo o sobrenaturalismo e se apoia com primazia na razão e ciência, na democracia e compaixão humana”. O Humanismo Moderno tem uma origem dupla, secular e religiosa, e estas constituem as suas subcategorias.
Humanismo Secular
É um desenvolvimento do iluminismo racionalista do séc. XVIII e do livre-pensamento do séc. XIX. Muitos grupos seculares, como o Council for Secular Humanism (Conselho pelo Humanismo Secular) e a American Rationalist Federation (Federação Racionalista Americana), e muitos filósofos académicos e cientistas não filiados entre si, defendem esta filosofia.
Humanismo Religioso
Originou, em grande parte, da Cultura Ética, Unitarianismo e Universalismo. No presente, muitas congregações Unitárias Universalistas e todas as sociedades de Cultura Ética descrevem-se como humanistas no senso moderno.

A maior ironia em lidar com o Humanismo Moderno é a tendência dos seus defensores em discordarem se esta visão do mundo é ou não religiosa. Os que o vêem como uma filosofia são os Humanistas Seculares enquanto os que o vêem como uma religião são os Humanistas Religiosos. Este diferendo dura desde o início do séc. XX quando as tradições secular e religiosa convergiram e deram origem ao Humanismo Moderno.

Ambos os Humanistas Seculares e Religiosos partilham a mesma visão do mundo e os mesmos princípios básicos. Isto torna-se claro pelo facto de muitos Humanistas Seculares e muitos Humanistas Religiosos terem estado entre os signatários do Manifesto Humanista I em 1933, Manifesto Humanista II em 1973 e Manifesto Humanista III em 2003. Na perspectiva apenas filosófica não existem diferenças entre os dois. É apenas na definição de religião e na prática da filosofia que os Humanistas Seculares e Religiosos de facto discordam.

A definição de religião usada pelos Humanistas Religiosos é, com frequência, funcional. Religião é o que serve as necessidades pessoais e sociais de um grupo de pessoas que partilham a mesma visão filosófica do mundo.

Ao serviço das necessidades pessoais, o Humanismo Religioso oferece uma base para valores morais, um conjunto inspirador de ideais, métodos para lidar com as realidades mais duras da vida, fundamentos para viver a vida de forma jovial, e um sentimento global de propósito e significado.

Para servir as necessidades sociais, as comunidades humanistas religiosas (como as sociedades Cultura Ética e muitas igrejas Universalistas Unitárias) oferecem um sentimento de pertença, uma estrutura institucional para a educação moral das crianças, programas de férias partilhadas com pessoas com as mesmas ideias, o desempenho de ritos de passagem ideologicamente consistentes (casamentos, boas vindas de crianças, celebrações da maioridade, e por diante), uma oportunidade para a afirmação da filosofia de vida de uma pessoa, e um contexto histórico para as suas ideias.

Os Humanistas Religiosos defendem com frequência que a maior parte dos seres humanos têm necessidades pessoais e sociais que apenas podem ser satisfeitas pela religião (definida no sentido funcional já mencionado). Não concordam que uma pessoa deva ter de escolher entre satisfazer estas necessidades num contexto de fé tradicional ou não as satisfazer de todo; indivíduos que não se sentem em casa na religião tradicional devem conseguir encontrar uma casa na religião não tradicional.

Um jornalista perguntou-me uma vez se esta definição funcional de religião não correspondia a retirar o conteúdo e deixar apenas o invólucro superficial. A minha resposta foi que a verdadeira substância da religião é o papel que ela desempenha na vida das pessoas e na vida da comunidade. As Doutrinas podem diferir de denominação para denominação, e novas doutrinas podem substituir outras mais antigas, mas o propósito que a religião tem para as pessoas mantém-se o mesmo. Se definirmos a substância de algo como aquilo que mais perdura e é universal, então é a função da religião que é a sua substância, o seu conteúdo.

Tendo percepção destes factos, os Humanistas Religiosos certificam-se que nunca é permitido que a doutrina subverta o propósito mais elevado de satisfazer as necessidades humanas no aqui e agora. É por isso que as cerimónias humanistas de boas vindas a crianças são preparadas para cada comunidade e os serviços humanistas de casamento são feitos por medida para satisfazer as necessidades especiais do casal e das suas famílias. É por isso que os serviços fúnebres humanistas se concentram não em salvar a alma dos entes queridos que partiram, mas em proporcionar aos que sobrevivem uma experiência pessoal que relembra como eram em vida os que faleceram. É por isso que os humanistas não proselitizam as pessoas no seus leitos de morte. Acham preferível permitir às pessoas falecerem da forma que viveram, sem serem perturbadas pelas agendas de terceiros.

Finalmente, o Humanismo Religioso é "fé em acção". No seu ensaio "A Fé de um Humanista", o Ministro Universalista Unitário (UU) Kenneth Phifer declara:

O Humanismo ensina-nos que é imoral esperar que Deus aja por nós. Devemos agir para parar as guerras e os crimes e a brutalidade desta e de épocas futuras. Temos poderes extraordinários. Temos um elevado grau de liberdade em escolher o que iremos fazer. O Humanismo diz-nos que seja qual for a nossa filosofia do universo, em última instância a responsabilidade pelo tipo de mundo em que vivemos reside em nós.

Agora, enquanto os Humanistas Seculares possam concordar com muito do que os Humanistas Religiosos fazem, negam que esta actividade seja chamada “religião”. Não se trata de um mero debate semântico. Os Humanistas Seculares defendem que existem tantas coisas na religião merecedoras de crítica que o bom nome do humanismo não deve ser manchado por associação.

Os Humanistas Seculares referem-se com frequência aos Universalistas Unitários como “humanistas que ainda não abandonaram os hábitos da igreja”. Mas os Universalistas Unitários por vezes contrapõem que um Humanista Secular é simplesmente um “Unitário sem igreja”.

O autor polémico Salman Rushdie foi, nos últimos anos, talvez o exemplar mais conhecido da visão do mundo Humanista Secular. Eis o que disse no programa da ABC Nightline a 13 de Fevereiro de 1989, em relação ao seu livro Os Versículos Satânicos.

[O meu livro diz] que existe um antigo, antigo conflito entre a visão secular do mundo e a visão religiosa do mundo, e, em particular, entre textos que reclamam serem de inspiração divina e textos que são inspirados pela imaginação… Eu não confio em pessoas que anunciam serem portadores da verdade e que procuram orquestrar o mundo de acordo com essa verdade. Penso que essa é uma posição no mundo muito perigosa. Necessita ser desafiada. Necessita ser desafiada constantemente de todo o tipo de maneiras, e foi isso que tentei fazer.

Na edição de 2 de Março de 1989 da New York Review explica que em Os Versículos Satânicos :

tentei dar uma visão secular e humanista do nascimento de uma grande religião mundial. Por isto, aparentemente, devo ser julgado … “Hoje estão a ser desenhadas linhas de batalha,” exclama um dos meus personagens. “O Secular contra o religioso, a luz contra a escuridão. É melhor escolheres de que lado estás”.

A tradição Humanista Secular é em parte uma tradição de desafio, uma tradição que remonta à Grécia antiga. Podem-se ver, mesmo na mitologia grega, temas humanistas que raramente, se alguma vez, se manifestam nas mitologias de outras culturas. E não foram certamente repetidos pelas religiões modernas. O melhor exemplo é a personagem Prometeu.

Prometeu sobressai porque era admirado pelos antigos gregos como aquele que desafiou Zeus. Roubou o fogo dos deuses e trouxe-o de volta à terra. Por isso foi punido. E, no entanto, manteve o seu repto durante as suas torturas. Esta é uma das fontes do desafio humanista à autoridade.

A próxima vez que se vê na mitologia uma personagem Prometeana verdadeiramente heróica é Lúcifer no Paraíso Perdido de John Milton. Só que agora é o Diabo. Ele é o mal. Quem quer que se atreva a desafiar Deus deve ser a maldade personificada. Esta parece ser uma certeza da religião tradicional. Mas os antigos gregos não concordavam. Para eles, Zeus, apesar de todo o seu poder, ainda podia estar errado.

Imaginem o quão chocada ficou uma amiga quando lhe contei a minha visão dos “padrões morais de Deus”. Eu disse, “Se existisse um deus assim, e esses fossem de facto os seus princípios morais ideais, eu seria tolerante. Ao fim e ao cabo, Deus tem direitos às suas opiniões!”

Apenas humanistas se sentirão inclinados em falar desta maneira. Apenas humanistas podem sugerir que, mesmo que haja deus, não há problema em discordar dela ou dele. No Eutífron de Platão, Sócrates mostra que Deus não é necessariamente a fonte do bem, ou o próprio bem. Sócrates pergunta se algo é bom porque Deus o ordena, ou se Deus o ordena porque já é bom. No entanto, desde o tempo dos antigos gregos, nenhuma religião maioritária tem permitido este tipo de interrogação da vontade de Deus ou tornou um personagem desobediente num herói. São os humanistas que reclamam esta tradição.

Afinal, muito do progresso humano tem sido em desafio à religião ou à aparente ordem natural. Quando deflectimos um raio ou evacuamos uma cidade antes de ser atingida por um tornado, diminuímos o impacto dos denominados “actos de Deus”. Quanto aterramos na Lua, desafiamos a força gravitacional da Terra. Quando procuramos uma solução para a crise do SIDA, estamos a contrariar, como argumentou o já falecido Reverendo Jerry Falwell, “a punição de Deus aos homossexuais”.

Politicamente, o desafio às autoridades religiosas e seculares levou à democracia, direitos humanos, e à protecção do ambiente. Os humanistas não pedem desculpa por isto. Os humanistas não manipulam nenhuma doutrina bíblica para justificar estas acções. Reconhecem o desafio Prometeano da sua resposta e orgulham-se nisso. Pois esta resposta é parte da tradição.

Outro aspecto da tradição Humanista Secular é o cepticismo. O modelo histórico do cepticismo é Sócrates. Porquê Sócrates? Porque, depois de todo este tempo, ele ainda se destaca sozinho entre todos os santos e sábios famosos, da antiguidade ao presente. Todas as religiões têm os seus sábios. O Judaísmo tem Moisés, o Zoroastrismo tem Zaratustra, o Budismo tem Buda, o Cristianismo tem Jesus, o Islão tem Maomé, o Mormonismo tem Joseph Smith e Bahai tem Baha-u-lah. Cada um destes indivíduos reclamava saber a verdade absoluta. Apenas Sócrates, sozinho entre sábios famosos, dizia não saber nada. Todos desenharam um conjunto de regras ou leis, excepto Sócrates. Ao invés, Sócrates deu-nos um método – um método para questionar as regras dos outros, de contra-interrogação. E Sócrates não morreu pela verdade, morreu pelos direitos e na defesa do estado de direito. Por estas razões, Sócrates é o modelo de humanista céptico. Ergue-se como um símbolo, tanto do racionalismo Grego como da tradição humanista que nele se originou. E nenhum santo ou sábio igualmente reconhecível se juntou à sua companhia desde a sua morte.

Devido à forte identificação Humanista Secular com as imagens de Prometeu e Sócrates, e uma rejeição igualmente forte da religião tradicional, o Humanista Secular concorda, de facto, com Tertuliano que disse: O que é que Jerusalém tem a ver com Atenas?.

Isto é, os Humanistas Seculares identificam-se mais com a herança racional simbolizada pela antiga Atenas do que com a herança de fé representada pela antiga Jerusalém.

Mas não assumam que o Humanismo Secular é apenas negativo. O lado positivo é a libertação, expressa da melhor forma por estas palavras do agnóstico Americano Robert G. Ingersoll:

Quando me convenci que o universo é natural, que todos os fantasmas e deuses são mitos, entrou no meu cérebro, na minha alma, em todas as gotas do meu sangue a sensação, o sentimento, a alegria da liberdade. As paredes da minha prisão derrocaram e caíram. A masmorra foi inundada por luz e todos os ferrolhos e grades e algemas se tornaram pó. Já não era um servente, um servo ou um escravo. Não tinha nenhum mestre em todo o mundo, nem mesmo no espaço infinito. Eu era livre – livre para pensar, para expressar os meus pensamentos – livre para viver o meu próprio ideal, livre para viver para mim e para aqueles que amava, livre para usar todas as minhas capacidades, todos os meus sentidos, livre para espalhar as asas da imaginação, livre para investigar, para pensar o futuro e sonhar e ter esperança, livre para ajuizar e decidir por mim próprio… Era livre! Ergui-me e sem medo, alegremente enfrentei todos os mundos.

O suficiente para fazer um Humanista Secular gritar “aleluia!”.

O facto de o humanismo poder ser, ao mesmo tempo, tanto religioso como secular corresponde a um paradoxo, claro, mas não é o único paradoxo deste género. Outro paradoxo é que tanto Humanistas Religiosos como Seculares colocam a razão acima da fé, em geral até evitarem a fé por inteiro. O humanismo dá normalmente ênfase à dicotomia entre razão e fé, com os humanistas a marcarem posição do lado da razão. Desta forma, o Humanismo Religioso não deve ser encarado como uma fé alternativa, mas sim com um modo alternativo de se ser religioso.

Estas características paradoxais requerem não só um tratamento único do Humanismo Religioso no estudo das religiões do mundo como ajudam também a explicar o contínuo desacordo, tanto dentro e fora do movimento humanista, sobre se o humanismo é de todo uma religião.

Os paradoxos não terminam aqui. O Humanismo Religioso não tem deus, não tem crença no sobrenatural, não acredita na vida para além da morte, e não tem crença numa fonte “superior” de valores morais. Alguns aderentes iriam até tão longe quanto afirmar que é uma religião sem “crenças” de qualquer género – considerando-se preferível o conhecimento baseado em evidências. Para além disso, a noção comum de “conhecimento religioso” enquanto conhecimento reunido por meios não científicos não é aceite na epistemologia Humanista Religiosa.

Como tanto o Humanismo Religioso como o Humanismo Secular se identificam com o Humanismo Cultural, ambos abraçam prontamente a ciência moderna, os princípios democráticos, os direitos humanos e a liberdade de investigação. A rejeição pelo humanismo dos conceitos de pecado e culpa, especialmente quando relacionados com a ética sexual, coloca-o em harmonia com a sexologia e educação sexual contemporâneas, assim como com aspectos da psicologia humanística. E a história de defesa do estado secular faz do humanismo mais uma voz na defesa da separação entre estado e igreja.

Todas estas características levaram à antiga acusação que se ensina na escola pública a “religião do humanismo secular”.

O ponto mais óbvio a esclarecer neste contexto é que algumas religiões agarram-se a doutrinas que colocam os seus seguidores em conflito com certas propriedades do mundo moderno. Outras religiões não o fazem. Por exemplo, muitos Cristãos Evangélicos, em especial os que preenchem as fileiras da “direita religiosa”, rejeitam a teoria da evolução. Por essa razão, vêem o ensino da evolução nas disciplinas de ciência como uma afronta às suas sensibilidades religiosas. Para defenderem as suas crenças da exposição a ideias inconsistentes com elas, estes crentes classificam a evolução como “Humanismo” e dizem que o seu ensino em exclusividade nas aulas de ciências constitui uma brecha na parede Jefersoniana de separação entre igreja e estado.

É de facto verdade que os Humanistas Religiosos, ao abraçarem a ciência moderna, abraçaram também a evolução. Mas indivíduos que seguem as principais correntes do Protestantismo, Catolicismo e Judaísmo também abraçam a ciência moderna – e, por isso, também a evolução. Acontece que a evolução está hoje no pino do desenvolvimento da ciência e é, desta forma, ensinada nas aulas de ciências. O facto de a evolução ter sido identificada com o Humanismo Religioso e não com a corrente principal do Cristianismo ou Judaísmo é um resultado estranho da política na América do Norte. Mas trata-se de um exemplo típico de toda a controvérsia sobre o humanismo nas escolas.

Outras áreas de estudo têm sido identificadas igualmente com o humanismo, incluindo a educação sexual, a educação de valores (values education), a educação mundial (global education) e, até, a escrita criativa. Existem Cristãos fundamentalistas que nos querem convencer que a “ética de situação (situation ethics)” foi inventada pelo Humanista do Ano de 1974 Joseph Fletcher. Mas as considerações situacionais têm sido um elemento da jurisprudência Ocidental há pelo menos 2000 anos! De novo, os Humanistas Seculares e Religiosos, estando em harmonia com os desenvolvimentos recentes, estão confortáveis com tudo isto, assim como estão os seguidores da maioria das principais religiões. Não há justificação para se verem estas ideias como a herança exclusiva do humanismo. Existem, ainda, razões seculares independentes para a oferta pelas escolas do currículo ensinado. Uma parcialidade a favor da “religião do humanismo secular” nunca foi um factor no seu desenvolvimento e implementação.

A acusação de infiltração humanista nas escolas públicas parece ser o resultado de confusão entre Humanismo Cultural e Humanismo Religioso. Apesar de o Humanismo Religioso abraçar o Humanismo Cultural, isto não justifica separar o Humanismo Cultural, rotulando-o como o legado exclusivo de uma religião não teísta e naturalista chamada Humanismo Religioso, e declará-lo um invasor. Fazê-lo seria virar as costas a uma parte significante da nossa cultura e eleger as normas do fundamentalismo cristão como juízes do que é ou não é religioso. Uma compreensão mais profunda da cultura Ocidental ajudaria a clarificar as questões relacionadas com a controvérsia sobre o humanismo nas escolas públicas.

Ao deixar para trás as áreas de confusão, torna-se possível explicar, de forma simples e directa, o que é exactamente a filosofia do Humanismo Moderno. É fácil resumir as ideias base, comuns tanto aos Humanistas Religiosos como aos Humanistas Seculares. Essas ideias são as seguintes:

  1. O Humanismo é uma daquelas filosofias para as pessoas que pensam por si próprias. Não há uma área de pensamento que um Humanista tenha medo de desafiar e explorar.
  2. O Humanismo é uma filosofia centrada nos meios humanos para compreender a realidade. Os Humanistas não reclamam possuir ou ter acesso a conhecimento supostamente transcendental.
  3. O Humanismo é uma filosofia de razão e ciência na procura do conhecimento. Desta forma, quando se chega à questão dos meios mais válidos para adquirir conhecimento do mundo, os Humanistas rejeitam a fé arbitrária, autoridade, revelação e estados alterados de consciência.
  4. O Humanismo é uma filosofia da imaginação. Os Humanistas reconhecem que os sentimentos intuitivos, palpites, especulação, luzes súbitas de inspiração, emoções, estados alterados de consciência e até experiências religiosas, apesar de não serem métodos válidos para a aquisição de conhecimento, mantêm-se fontes úteis de ideias que podem conduzir a novas formas de olhar o mundo. Estas ideias, após um escrutínio racional sobre a sua utilidade, podem ser aplicadas, frequentemente como formas alternativas de resolução de problemas.
  5. O Humanismo é uma filosofia para o aqui e agora. Os Humanistas encaram os valores humanos como fazendo sentido apenas no contexto da vida humana, em vez de no contexto de uma promessa de uma suposta vida para além da morte.
  6. O Humanismo é uma filosofia de compaixão. A ética Humanista preocupa-se apenas com dar resposta às necessidades e problemas humanos – tanto para o indivíduo como para a sociedade – e não dá qualquer atenção à satisfação dos desejos de supostas entidades teológicas.
  7. O Humanismo é uma filosofia realista. Os Humanistas reconhecem a existência de dilemas morais e a necessidade de se considerarem cuidadosamente as consequências imediatas e futuras das decisões morais.
  8. O Humanismo está em sintonia com a ciência actual. Desta forma, os Humanistas reconhecem que vivemos num universo natural de grade tamanho e idade, que evoluímos neste planeta durante um longo período de tempo, que não existe nenhuma evidência convincente de uma “alma” separável, e que os seres humanos têm certas necessidades intrínsecas que formam, efectivamente, a base de qualquer sistema de valores orientado para o homem.
  9. O Humanismo está em sintonia com o pensamento social instruído do presente. Os Humanistas estão empenhados com as liberdades civis, direitos humanos, separação entre igreja e estado, a extensão da democracia participativa, não apenas no governo mas no local de trabalho e educação, a expansão da consciência global e troca de produtos e ideias internacionalmente, e com uma abordagem à resolução de problemas sociais aberta, uma abordagem que permite o teste de novas alternativas.
  10. O Humanismo está em sintonia com novos desenvolvimentos tecnológicos. Os Humanistas estão disposto a participar em novas descobertas científicas e tecnológicas de forma a exercerem a sua influência nestas revoluções conforme se vão tornando realidade, especialmente com o objectivo de protegerem o ambiente.
  11. O Humanismo é, em síntese, uma filosofia para quem está apaixonado pela vida. Os Humanistas assumem responsabilidade pelas suas próprias vidas e saboreiam a aventura de serem parte de novas descobertas, procurando novos conhecimentos, explorando novas opções. Em vez de encontrarem conforto em respostas pré-fabricadas às grandes questões da vida, os humanistas apreciam a abertura de uma procura sem fim determinado e a liberdade de descoberta que dela advém.

Apesar de haver quem sugira que esta filosofia sempre teve uma adesão fraca e excêntrica, os factos da história mostram o contrário. Entre os aderentes modernos do humanismo contam-se Margaret Sanger, fundadora da Planned Parenthood (Reprodução Planeada) e Humanista do Ano da American Humanist Association (Associação Humanista Americana) em 1957; Os pioneiros da psicologia humanística Carl Rogers e Abraham Maslow, também Humanistas do Ano; Albert Einstein, que se identificou com o humanismo nos anos 30 do séc. XX; Bertrand Russell, que aderiu à Associação Humanista Americana nos anos 60 do séc. XX; o pioneiro dos direitos cívicos A. Philip Randoph, que foi o Humanista do Ano em 1970; e o futurista R. Buckminister Fuller, Humanista do Ano em 1969.

A Organização das Nações Unidas (ONU) é um exemplo específico do humanismo em acção. O primeiro Director Geral da UNESCO, a organização da ONU que promove a educação, ciência e cultura, foi o Humanista do Ano de 1962 Julian Huxley, que praticamente compôs os estatutos da UNESCO sozinho. O primeiro Director Geral da Organização Mundial de Saúde (OMS) foi o Humanista do Ano de 1959 Brock Chisholm. Um dos maiores feitos da OMS foi a erradicação da varíola da face da terra. E o primeiro Director Geral da Organização para a Agricultura e Alimentação (FAO) foi o Humanista Britânico John Boyd Orr.

Entretanto, humanistas como o Humanista do Ano de 1980 Andrei Sakharov ergueram-se em defesa dos direitos humanos onde quer que esses direitos fossem suprimidos. Betty Friedan e Gloria Steinem lutaram pelos direitos das mulheres, Mathilde Krim combateu a epidemia do SIDA, e Margaret Atwood mantém-se como uma das mais vocais defensoras da liberdade literária - todos humanistas.

A lista de cientistas é notável: Stephen Jay Gould, Donald Johanson, Richard Leakey, E.O. Wilson, Francis Crick, Jonas Salk, Steven Weinberg, Carolyn Porco, e muitos outros – todos sócios da Associação Humanista Americana, cujo presidente nos anos 80 do séc. XX foi o já falecido cientista e escritor Isaac Asimov.

A lista de sócios de organizações humanistas, tanto religiosas como seculares, lê-se como um Quem é quem. Através destas pessoas, e muitas outras menos conhecidas, a filosofia humanista teve um impacto no nosso mundo muito desproporcionado em relação ao número de aderentes. Isso diz-nos algo sobre o poder de ideias que funcionam.

Talvez este facto tenha levado o filósofo George Santayana a declarar que o humanismo é “um feito, não uma doutrina”.

Em resumo, com o humanismo moderno encontramos uma postura perante a vida ou uma visão do mundo que está em sintonia com o conhecimento moderno; é inspirador, socialmente consciente e com significado pessoal. Não é apenas a atitude da pessoa que pensa mas também da pessoa que sente, já que inspirou as artes tanto quanto inspirou as ciências; filantropia tanto quanto crítica. E mesmo na crítica é tolerante, defendendo os direitos de todas as pessoas em escolher outros caminhos, em falarem e escreverem livremente, em viverem as suas vidas de acordo com as suas luzes.

A escolha é, por isso, sua. É um humanista?

Não precisa de responder “sim” ou “não”. Pois não se trata de uma proposição “ou isto ou aquilo”. O Humanismo é seu – para adoptar ou simplesmente usar como fonte de inspiração. Pode usar pouco ou muito, bebericar ou sorver até à última gota.

A decisão é sua.

Este é o texto de uma palestra que tem sido apresentada a várias audiências ao longo dos anos.

Tradução por Pedro Lerias a partir do original What is Humanism?
© Copyright 1989 e 2008 por Fred Edwords